Prêmios da temporada 2017/18 da NBA – Parte I

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O prêmio individual mais cobiçado da NBA ainda é feio pra cacete

A temporada regular da NBA acabou, e agora nós já movemos para o que realmente importa: os playoffs.

Nós já fizemos, inclusive, várias colunas a respeito. Tem um preview sobre as séries do Leste, com palpites. Um preview sobre as séries do Oeste, exclusivo para assinantes. E essa quarta fizemos também um pequeno round-up sobre alguns pontos interessantes das séries até aqui. Nossa cobertura da pós-temporada está a todo vapor.

Mas eu admito que adoro falar sobre os prêmios e times (All NBA, All Defense, etc). É uma tradição, e uma das minhas colunas favoritas de escrever todo ano. Então mesmo com uma primeira rodada dos playoffs particularmente interessante, eu queria tirar aqui umas colunas para falar desse assunto.

E antes de começar, uma coisa importante que eu queria deixar claro: essas decisões são difíceis, e isso é duplamente mais difícil esse ano. Tanto nos prêmios individuais como nos times ideais da temporada, vai ser difícil achar um mais parelho e com mais possibilidades do que o desse ano. O jogador que você gosta não ser escolhido não é porque eu odeio ele, porque eu odeio o seu time, porque eu não entendo nada de basquete e/ou não vi ele jogar. Essas decisões são difíceis, e muitas vezes a margem entre diferentes opções é muito pequena. Você pode ter mais de um jogador merecedor em um prêmio, e alguém vai ter que ficar sem. Faz parte da vida.

Todas as decisões dessa coluna foram muito pensadas e estudadas. E não é figura de expressão: eu passei boa parte das últimas duas semanas, enquanto os playoffs não se definiam, estudando vídeos, assistindo reprises de jogos, vendo estatísticas, e pesando todos os casos principais dessa coluna. Então se você não concordar comigo – o que é perfeitamente válido – só lembre do quanto de trabalho vai nisso, e do quanto cada decisão foi pensada e estudada antes de ser feita, ao invés de só reclamar que eu não escolhi quem você queria.

Essa coluna é na verdade apenas a primeira parte dessa série. Serão, na verdade, duas ou três colunas, com duas garantidas e a terceira acontecendo se o tempo e os assuntos mais urgentes permitirem. Então essa é a Parte I, que trata dos prêmios individuais da temporada: MVP, Defensive Player of the Year, Rookie of the Year, Coach of the Year, 6th Man of the Year, e Most Improved Player.

A Parte II, daqui a 14 dias, será sobre os times ideais da temporada: All NBA, All Defense e All Rookie Teams. Na Parte III (ainda não confirmada) será a vez dos Prêmios Alternativos da temporada.

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Most Improved Player (Jogador que mais evoluiu)

Esse é, de longe, o prêmio que eu menos gosto na NBA.

Não pela ideia do prêmio em si, mas porque ele é muito mal usado pelas pessoas que votam. Como o próprio nome sugere, esse prêmio deve ser para alguém que evoluiu seu jogo: adicionou coisas novas, mudou sua forma de jogar (para melhor), se transformou em um jogador diferente, um nível acima, em relação ao anterior.

No entanto, os votantes tem a irritante mania de votar apenas no jogador que deu um salto numérico na sua temporada sem se preocupar se esse jogador mudou alguma coisa do seu jogo, ou evoluiu de verdade como jogador de basquete. Não acredita? Olhe essa comparação:

Jogador A: 17.2 PPG, 9.0 RPG, 1.3 APG, 1.0 BPG, 43.0 FG%, 39.3 3PT%, 21.2 PER
Jogador B:18.0 PPG, 8.3 RPG, 1.0 APG, 0.5 BPG, 43.3 FG%, 39.3 3PT%, 18.1 PER

Bem próximo, quase igual, certo?

Esses são os números de Ryan Anderson nas temporadas 2011 e 2012, respectivamente, por 36 minutos. No entanto, em 2012 o Magic perdeu seus dois principais PFs – Brandon Bass e Rashard Lewis – e com isso Anderson foi para o time titular de Orlando e passou a ganhar mais minutos. Seus números totais evoluíram com o aumento de minutos, ele ganhou mais atenção, e foi eleito Most Improved Player embora Anderson fosse EXATAMENTE o mesmo jogador que fosse um ano antes. Existe, claro, mérito em manter a mesma produtividade em uma carga maior, mas Anderson não mudou ou adicionou nada no seu jogo, e a única diferença foi que ele ganhou mais minutos devido a mudanças no seu elenco. Esse é geralmente um prêmio burro.

Todo prêmio carrega consigo uma boa dose de subjetividade, mas esse talvez seja o pior de todos. Como avaliar o jogador que mais evoluiu? Muitos jogadores tem temporadas melhores de um ano para outro, mas muitas vezes isso não tem a ver com evolução, e apenas com uma situação melhor para ele, como por exemplo Trey Lyles, que achou vida nova sendo muito melhor usado em Denver do que era em Utah. Eu também sempre acho esquisito votar em jogadores nos primeiros 2-3 anos de NBA, especialmente escolhas altas de Draft: caras como Jamal Murray e Jaylen Brown fizeram grandes saltos, mas não é ESPERADO que escolhas altas como eles tenham essa evolução no seu segundo ano de NBA? Claro que você pode sempre ter uma evolução muito fora da curva que mereça o prêmio, mas em geral esses garotos estão simplesmente seguindo uma curva esperada de evolução.

Dito isso, quando você limpa o “ruído” e começa a olhar a fundo, você percebe que tem bons candidatos a ganhar esse prêmio esperando para serem achados. Esse ano não é exceção.

Pegue Andre Drummond, por exemplo. Numericamente, você não pensaria duas vezes nele. Sua temporada 2018 (15 pontos, 16 rebotes, 3 assistências, 1,5 roubos, 1,6 tocos, 53 FG%) não se destaca tanto em relação a seu 2016 (16 pontos, 15 rebotes, 1 assistência, 1,5 roubos, 1,4 tocos, 52 FG%). Mas quando você assiste e acompanha Drummond durante a temporada a evolução no seu jogo é nítida: o pivô reinventou totalmente seu jogo esse ano, mudando de um ineficiente grandalhão que fechava o garrafão para o Pistons para se concentrar em um jogo muito mais cerebral focado no high post. Drummond começou a jogar na cabeção do garrafão e com as bolas nas mãos, revelando um totalmente novo e excelente repertório de passes que destravaram completamente a forma de Detroit jogar esse ano. Essa mudança – que em parte foi possível graças aos seus lances livres, que passaram de 38 FT% para 61 FT% – abriu o garrafão, ajudou a mitigar o problema de falta de ballhandlers no time, e foi um dos principais fatores por trás do bom começo do Pistons essa temporada. Drummond reinventou totalmente o seu jogo em uma direção melhor tanto individual como coletivamente. É exatamente esse tipo de coisa que o prêmio deveria recompensar.

Tem outros bons exemplos, claro. Steven Adams praticamente melhorou em todas as áreas desse ano e teve um impacto maior do que nunca dos dois lados na quadra, mas seu impacto é o tipo de coisa que aparece e impacta nas pequenas coisas e não nas estatísticas, o que faz essa evolução ser menos notada (jogar no Thunder não ajuda nesse sentido também). Clint Capela não realmente mudou ou transformou seu jogo, ele simplesmente se tornou melhor e refinou todas as áreas dele: finalizando, se movimentando sem a bola, defendendo, e especialmente nos rebotes e nas leituras em movimento – o suíço foi uma parte muito maior do que creditam pela ascenção do Rockets a melhor time da temporada. Joe Ingles já tinha começado sua evolução ano passado, mas se solidificou esse ano como um dos mais completos alas da NBA. Julius Randle mudou sua forma de jogar para pior, segurando demais a bola e passando menos, mas ele pegou essa forma menos eficiente e foi bem dominante com ela, além de finalmente se esforçar na defesa (embora eu questione se “começar a se esforçar” realmente entra como uma evolução), mas não sei o quanto isso é  uma”evolução” e o quanto é simplesmente “jogar muito melhor”. Dario Saric reinventou seu jogo (e seu chute de longa distância) para melhor encaixar com Embiid e principalmente Simmons, e sua evolução nisso ao longo do ano foi um fator chave na ascenção do Sixers. Shabazz Napier e Dejounte Murray merecem também atenção. Trey Burke estaria no Top5 se tivesse jogado mais partidas.

Mas apesar da boa oferta de nomes, tem um claro vencedor esse ano, que é Victor Oladipo. Entre todas as “evoluções” que jogadores da NBA podem ter – jogadores ruins evoluindo em role players, um bom jogador adicionando uma dimensão nova no seu jogo, garotos dando o próximo passo, etc – não existe nenhuma evolução mais importante e difícil na NBA do que um jogador sólido de repente se tornando uma estrela. E foi exatamente isso que Oladipo fez, indo de um role player decepcionante para uma legítima estrela na NBA e alguém que brigará por um lugar num time All-NBA (mais sobre isso na Parte II).

Oladipo indo para longe de Westbrook e do Thunder sem dúvida ajudou, e ir de uma opção secundária que geralmente tocava na bola em situações estagnadas ou por tempos limitados para um jogador que time mais liberdade para correr e criar com a bola nas mãos sem dúvida ajudou a jogar mais nas forças de Oladipo, mas limitar sua evolução a isso não faz jus ao quanto o camisa 4 melhorou esse ano. Dipo passou o verão todo treinando feito condenado para transformar o seu corpo, reduzindo consideravelmente sua gordura corporal e aumentando a massa muscular (ver fotos do Oladipo de 2017 vs 2018 é tipo aqueles “antes e depois” de produtos pra emagrecer), ficando mais forte, rápido e explosivo do que nunca.

Suas finalizações no aro melhoraram, e seus arremessos também. O Pacers é o time que joga no ritmo mais rápido da NBA, e isso também ajudou: Oladipo é um dos jogadores mais rápidos da liga e isso se mostra muito naquelas situações de semi-transição após um rebote defensivo – Oladipo adora torturar defensores que estão correndo de costas para a defesa, que não tem esperança de acompanhar suas mudanças de direção. E, igualmente importante, Dipo tem jogado com um nível de confiança que eleva seu jogo. Ele ainda as vezes da alguns arremessos indesejáveis, principalmente pull ups longos de 2 pontos, mas ele da esses arremessos de forma tão decidida e sem hesitação que isso por si só ajuda a abrir um pouco a mais de espaço e tornar esses chutes mais eficientes.

A evolução de role player para estrela é de longe a mais importante que alguém pode fazer na NBA. É o tipo de coisa que muda completamente o planejamento e o destino de uma franquia. Com o Oladipo do Thunder, esse Pacers seria no máximo 8th seed ou talvez nem fosse aos playoffs. A evolução de Oladipo fez de Indiana uma 5th seed que acabou de roubar mando de quadra de LeBron James nos playoffs. Ele deveria ser o vencedor unânime desse prêmio.

Ballot final: 1. Victor Oladipo; 2. Andre Drummond; 3. Steven Adams; 4. Clint Capela; 5. Dario Saric.

Coach of the Year

Isso é algo que TODO ANO que eu escrevo nessa coluna, mas nunca é demais frisar: em parte pelos avanços analíticos e estatísticos dos últimos 10 anos, mas a NBA vive hoje uma era de ouro em termos de grandes trabalhos de técnicos. O trabalho de técnico em si, inclusive, mudou demais com o tempo, conforme o jogo foi ficando mais complexo e compreendido. Em 1984, um bom ajuste técnico era KC Jones descobrir no Jogo 4 das Finais que seu melhor defensor de perímetro deveria marcar Magic Johnson. Em 2018, HCs precisam se preocupar com cada nível mínimo de detalhe de cada tipo de jogada, sabem em um nível granular as diferenças em 10 pontos diferentes para explicar por que você precisa fazer Harden driblar para a direita e não a esquerda, e os ataques estão preocupados no que vai acontecer quando você fizer o quinto corta-luz de uma jogada. Ficou muito mais complexo, e quanto mais complexo, mais oportunidades surgem.

Nesse ambiente, temos todos os anos grandes temporadas e grandes trabalhos de técnicos, e muitos merecedores para esse prêmio. Mike D’Anthony foi o técnico do melhor time da liga, e integrou perfeitamente um jogador difícil em Chris Paul ao seu elenco e seu esquema tático sem o time sentir nada no processo (algo bem mais difícil do que parece olhando apenas o resultado). Dwane Casey reinventou completamente a forma do Raptors jogar e fez seu time inteiro se adaptar a um estilo de jogo mais moderno da noite para o dia, e conduziu perfeitamente as rotações e a montagem do elenco ao longo do ano, levando o Raptors à #1 seed do Leste e melhor campanha da sua história. Brett Brown levou o Sixers a 52 vitórias e uma #3 seed (um ano depois de vencer 28 jogos) e tirou o máximo de um elenco com encaixe bem complicado. Erik Spolestra fez as magias de sempre com um elenco cheio de peças díspares (que eu comparei a um jogo de LEGO no meu preview dos playoffs). Nate McMillan levou um desacreditado Pacers a 48 vitórias e a #5 seed. Alvin Gentry fez um trabalho fantástico integrando Anthony Davis e DeMarcus Cousins, um encaixe bem difícil, e teve que reinventar (com enorme sucesso) o esquema de jogo do time após a lesão de Cousins, e o Pelicans ainda foi a #6 seed. Doc Rivers fez seu melhor trabalho em muitos anos no Clippers. E Greg Popovich, como sempre, fez sua mágica, levando um time muito limitado que passou o ano praticamente todo sem um dos 5 melhores jogadores da NBA a 47 vitórias e aos playoffs pela vigésima primeira temporada consecutiva. Infelizmente eu não posso votar em todos e só cabe 5 no ballot, mas todos mereciam pelo menos ser citados nessa coluna.

Todos esses técnicos tiveram excelentes temporadas e excelentes trabalhos, e todos tem um caso para ganhar esse prêmio. Ainda assim, considerando ótimo trabalho feito, são todas temporadas que, de certa forma, fazem sentido acontecerem. O Sixers teve uma grande reviravolta esse ano, é verdade, mas eles também tiveram um calouro surreal em Ben Simmons e um ano saudável de Joel Embiid. O Raptors teve a #1 seed e venceu 59 jogos com um dos melhores ataques da NBA, mas eles já venceram 56 dois anos atrás e seu ataque vinha sendo de elite faz tempo. Gentry ainda tem em Anthony Davis um dos mais fortes candidatos ao prêmio de MVP, e Jrue Holiday enfim ficou saudável o ano todo. Todos esses foram grandes trabalhos, mas estão dentro de algo que já poderia ser esperado – o que não torna o trabalho menos impressionante, mas falta um “algo a mais” que dois candidatos desse ano tem, colocando eles um nível acima (dentre os já citados, o trabalho de Casey provavelmente foi o mais impressionante pelo simples nível de dificuldade de mudar da noite para o dia, de forma totalmente orgânica e natural, a forma com que um time vinha jogando por 4 anos seguidos. O nível de dificuldade de fazer isso, tanto no nível tático como em fazer TODOS os jogadores comprarem isso sem nenhum problema, é imenso.)

Mas que fizeram esse ano o Celtics de Brad Stevens e o Jazz de Quin Snyder simplesmente não faz sentido.

O Celtics foi dado como o morto depois de cinco minutos na temporada, quando seu melhor jogador e grande aquisição do ano, Gordon Hayward, quebrou a perna – as pessoas estavam legitimamente se questionando se Boston iria se classificar para os playoffs, quanto menos ter mando de quadra. Boston trouxe de volta QUATRO jogadores apenas do ano passado. Três dos seus quatro jogadores com mais minutos no ano foram um calouro, um segundanista, e um terceiranista de fora da loteria. Dos seus 10 jogadores mais usados no ano, TRÊS eram calouros. Hayward, seu melhor jogador, jogou 5 minutos o ano todo. Kyrie Irving, seu segundo melhor jogador, perdeu 22 jogos e vai perder a pós-temporada. Daniel Theis está fora da temporada, Marcus Morris e Marcus Smart perderam 28 jogos cada. Nenhum time teve que lidar mais com lesões e ausências ao longo do ano do que o Celtics. Era um time novo, jovem e com pouca experiência. Times com tudo isso não deveriam ser bons, não deveriam ter o tipo de entrosamento e coletivismo que leva a bons resultados e boa defesa, e definitivamente não deveriam ser um dos melhores times da NBA. Mas não importou: Boston foi o segundo melhor time do Leste, venceu 55 jogos, e teve a MELHOR defesa da NBA. Lesões continuaram acontecendo o ano todo, e o Celtics simplesmente foi superando todas elas. Toda hora que parecia que o Celtics tinha achado uma adversidade que seria demais, eles continuavam ganhando. Tente explicar isso sem usar as palavras “Brad Stevens” ou “técnico”. Você não consegue.

O Jazz teve uma reviravolta semelhante. Utah perdeu seu melhor jogador de 2017 em (ironicamente) Gordon Hayward, e seu terceiro melhor jogador do ano em George Hill. Rudy Gobert, seu melhor jogador restante e um dos melhores pivôs da NBA, perdeu 26 jogos machucados. Dante Exum se machucou antes da temporada começar, e o melhor jogador do time era um calouro escolhido com a escolha #13 do Draft. Sem Gobert e com o time desmontado, Utah começou o ano 19-28 e, no fortíssimo Oeste, parecia condenado.

Nope. Gobert voltou, e de repente o Jazz virou um juggernault, varrendo o resto da NBA e sendo o melhor time da liga desse ponto em diante. Gobert foi um monstro, Mitchell evoluiu em uma estrela logo como calouro, e o Jazz terminou o ano com a seed #5 e 48 vitórias que pareciam impossíveis seis meses antes.

Ambos esses trabalhos, Stevens e Snyder, estão no núcleo dessas temporadas surreais. Escolher entre os dois é realmente difícil, porque ambos fizeram trabalhos fantásticos e ajudaram seus times a figurarem entre os melhores da liga. Qualquer um que fosse escolhido aqui seria merecido.

Eu acabei optando por Brad Stevens. Utah e Boston foram dois dos meus times favoritos de assistir esse ano, e eu assisti MUITOS jogos de ambos, e vendo os times jogarem e mudarem ao longo do ano eu simplesmente senti que os ajustes técnicos do Stevens foram uma parte maior do sucesso de Boston do que Snyder em Utah. Ambos tiveram a tarefa hercúlea de remontar um time totalmente novo em meio a muita adversidade, mas a natureza das lesões de Boston que foram se sucedendo ao longo do ano forçaram Stevens a um número de ajustes e mudanças pontuais bem maior e mais imprevisível, e o fato de que todas elas pareciam sempre dar certo e ajudar o Celtics a vencer jogos que deveriam perder sem dúvida pesa na minha avaliação final. Stevens é possivelmente o segundo melhor técnico da NBA na atualidade, e o verdadeiro MVP do Celtics. Ele leva o prêmio – por pouco.

Ballot final: 1. Brad Stevens; 2. Quin Snyder; 3. Dwane Casey; 4. Brett Brown; 5. Greg Popovich.

6th Man of the Year

Outro prêmio que eu tenho problema com o critério que os votantes usam. Em geral, esse prêmio vai para o reserva que mais pontos fez vindo do banco na temporada, o que é uma forma limitada de ver: tem muitas outras formas de impactar um jogo do que só pontuando, e jogadores vindos do banco muitas vezes tem um papel tático importantíssimo (mudar o ritmo do jogo, alterar o plano de jogo da equipe, etc) que é ignorado pelos votantes – o motivo pelo qual as pessoas continuam votando em Jamal Crawford ao invés de alguém como Andre Iguodala.

Mas esse ano não tem como não votar em Lou Williams e seus 22,3 pontos por jogo vindos do banco para o Clippers. Ele jogou com uma legítima estrela esse ano, com minutos e responsabilidades de titular, e sua pontuação adoidada, passes e arremessos de longe foram o principal motivo pelo qual o Clippers sobreviveu tão bem em um ano tão esquisito. Lou sempre foi ótimo atacando a cesta e cavando faltas, mas ele expandiu um pouco seu jogo na direção da linha de três, acertando um número obsceno daqueles difíceis e importantes três pontos a partir do drible que abrem todo o resto da quadra para a equipe. O Clippers superou adversários por 0,6 pontos por 100 posses de bola com Lou em quadra e foi superado por -1,6 por 100 posses com ele no banco, esta última a pior margem de todos os jogadores de LA.

Meu voto de segundo lugar, no entanto, vai para um jogador que tem média de 9 pontos e 3 assistências por jogo: Fred VanVleet.

Durante anos uma das grandes fontes de sucesso do Raptors foi sua lineup vinda do banco, com Kyle Lowry sendo o titular e maestro desses quintetos que destruíam outras segundas unidades. Esse ano, o técnico Dwane Casey mudou um pouco e começou a usar lineups só com jogadores vindas do banco, com VanVleet e/ou Delon Wright ao invés de Lowry, e elas tem sido um sucesso absurdo. E um dos principais motivos é VanVleet, o tipo de jogador de energia e que faz tudo bem que faz tudo funcionar: ele é muito inteligente com a bola nas mãos, versátil sem ela, e não para de correr um segundo sequer. VanVleet chuta 41% de três, é excelente conseguindo separação, e é um defensor agressivo, físico e versátil do outro lado.

A lineup do banco do Raptors – VanVleet, Wright, CJ Miles, Pascal Siakam e Jacob Poetl – foi a segunda melhor com 300+ minutos de TODA a temporada regular, com Net Rating de +17,6, e VanVleet é o motor por trás disso. Ele tem sido tão eficiente e versátil que o Raptors até começou a usar ele com os titulares, e a lineup titular com FVV no lugar de OG Anunoby tem Net Rating de +24,3 (!!!!), destruindo adversários dos dois lados da bola. No geral, o Raptors tem Net Rating de +12,3 quando VanVleet está em quadra (a melhor marca do time) e +4,5 quando ele está no banco (a pior marca do time). VanVleet pode não ter os números, mas ele muda o jogo quando entra em campo.

Além desse meu Top2, tem alguns nomes interessantes, e eu vou destacar aqui só os principais. Will Barton vai ganhar votos por causa dos seus 16 pontos por jogo, mas além disso sua versatilidade na ala é essencial para o Nuggets sobreviver com diferentes lineups (especialmente sem Millsap durante boa parte do ano), e ele adiciona uma dose muito necessária de atleticismo e criatividade com a bola para Denver quando entra em quadra – seu impacto vai bem além dos pontos. Eric Gordon também é um monstro de plus/minus que tem 18 pontos por jogo de média e melhorou consideravelmente sua defesa esse ano, e mostrou mais agressividade atacando a cesta e cavando faltas, mesmo com seu 3PT% caindo. Terry Rozier foi alguém que jogou em todas as funções possíveis para um time do Boston que lidou com lesões o ano todo, e acabou o ano como titular depois que Kyrie Irving E Marcus Smart ficaram de fora por lesões – sua defesa é uma ameaça, seus chutes de três (38%) e playmaking melhoraram absurdamente esse ano, e sua energia foi um fator muito usado por Brad Stevens para mudar o ritmo de jogos, e foi crucial por trás de muitas reações de Boston ao longo do ano.

Entre os últimos cortes, vale destacar Luc Mbah a Moute que merece muitos créditos pela sua transformação defensiva do Rockets quando entra em quadra, e Kelly Olynyk que também teve um papel chave transformando Miami com seu espaçamento quando entrou.

Ballot final: 1. Lou Williams; 2. Fred VanVleet; 3. Will Barton; 4. Terry Rozier; 5. Eric Gordon.

Rookie of the Year

Essa tem sido, infelizmente, a disputa mais polarizadora desse ano. E eu digo infelizmente porque, em uma disputa de pesos pesados entre Ben Simmons e Donovan Mitchell, acabou aparecendo de novo o pior lado da natureza humana quando discutimos esportes. Quem é fã de um jogador (ou até mesmo os próprios jogadores) fica desmerecendo o outro para tentar enaltecer a candidatura do seu jogador favorito, e quando alguém manifesta seu apreço por um dos candidatos os fãs do outro já encaram isso como uma ofensa mortal. As pessoas esquecem nessas horas que dois jogadores podem ser excelentes, mas você tem que escolher um para o prêmio – escolher X ao invés de Y não é uma ofensa a Y de forma alguma.

Dito isso, eu pessoalmente sou da opinião de que essa não é uma disputa tão apertada e decidida nos mínimos detalhes como a narrativa parece dizer – que um candidato se sobressaiu de forma conclusiva (pelo menos pra mim) aos demais e deveria ser o eleito. A percepção de que essa é uma disputa extremamente igual vem mais do fato de que esse ano temos dois calouros em temporadas históricas para um novato, e que ambos seriam amplamente merecedores de ganhar esse prêmio – o que é a pura verdade. O #2 no meu ballot final venceria o prêmio de ROY com facilidade em 5 dos últimos 6 anos. Mas com o tempo isso acabou sendo confundido com “esses dois calouros estão no mesmo nível”, o que eu não acho que seja verdade.

Para mim, Ben Simmons é o calouro do ano, um nível acima de Mitchell, que está um nível acima de Jayson Tatum, que está um nível acima de todo o resto. E quando eu digo isso, eu não falo como uma afronta a Mitchell ou a nenhum outro jogador dessa excelente classe de calouros. Eu não acho que Mitchell tenha algum problema, que não seja tão bom assim, ou não seja historicamente excelente para um calouro. Eu acho que Simmons é o calouro do ano porque, simplesmente, ele é o melhor jogador desse ano entre calouros.

Comparando diretamente Simmons e Mitchell, são dois jogadores com estilos diferentes, e com funções diferentes. Mitchell é mais um pontuador, alguém que assumiu (e teve enorme sucesso) como a opção ofensiva #1 do seu time, enquanto Simmons foi o armador principal, encarregado de armar e organizar o ataque. Claro, ambos tem um impacto que vai muito além disso: Simmons também foi um excelente pontuador, com média de 16 pontos por jogo e 54,5 eFG%, e Mitchell também jogou várias vezes armando o jogo e tem um arsenal de passes bem mais avançado do que você esperaria.

Mas Simmons foi simplesmente melhor do que Mitchell dos dois lados da quadra. O caso de Mitchell para ROY diz respeito aos seus números melhores na pontuação bruta e o fato de que, com um arremesso de fora que Simmons não tem, ele seria um pontuador melhor do que o australiano. Mas isso não é verdade. Mitchell é, sem dúvida, um pontuador mais versátil que Simmons, e existe um valor nessa versatilidade: times precisam respeitar o alcance no seu jogo e te marcar mais perto da linha dos três pontos, o que abre espaço para o resto do time.

Mas ser mais versátil não faz de você um pontuador melhor, nem jogador ofensivo melhor. Mitchell tem média de 4 pontos por jogo a mais que Simmons, mas ele também arremessa CINCO bolas por jogo a mais que o armador do Sixers. Simmons é, na verdade, um pontuador muito mais eficiente: seu eFG% (que ajusta pelo tipo de arremesso, incluindo FT e 3PTs) é de 54,5%, e o de Mitchell apenas 50,6%, em parte porque apesar de Mitchell chutar bastante de três, ele não é muito bom nisso: 34 3PT%, abaixo da média da NBA. As pessoas confundem Simmons não ter um chute de fora com ele não ser um bom pontuador, o que é ridículo: ele consegue chegar no aro com extrema facilidade e é um ótimo finalizador de curta distância, postando números muito bons tanto de pontuação como eficiência. Os números superiores de Mitchell (20 ppg) como pontuador vem do maior volume, o que não é um demérito dele: alguém precisou assumir essa função em Utah, e Mitchell não só fez isso bem como fez de forma a ajudar o jogo do resto da sua equipe a encaixar. Mas não quer dizer que ele seja melhor nisso só porque anota mais pontos. E também não é verdade dizer que Mitchell carregou um papel ofensivo maior que Simmons: Isso é verdade apenas no que diz respeito à pontuação, mas Simmons teve um papel muito maior armando e iniciando jogadas do que Mitchell, que jogava em um time com muito mais ballhandlers que o australiano.

Quando falamos de ataque temos que levar em conta a criação de jogadas, e nisso Simmons leva uma vantagem imensa. O australiano já é um dos 5 melhores passadores da NBA, um monstro de quase 2m10 de altura que lembra demais um jovem LeBron ou mesmo um jovem Magic nesse quesito: ele tem a altura para enxergar por cima da defesa e conseguir abrir ângulos que não existe para jogadores menores; a técnica e habilidade para executar qualquer passe que apareça; e a visão e mentalidade para conseguir enxergar o jogo dois ou três passos à frente, sabendo quais passes vão se abrir antes da defesa sequer começar o movimento. Ele é um mestre de xadrez, manipulando as peças em alta velocidade – especialmente em transição – e antecipando tudo que vai acontecer. Nós ainda associamos demais “passes” com “assistências”, e embora as 8 assistências por jogo de Simmons sejam ótimas, elas não contam toda a história de como esses passes são incríveis e elevam o jogo de todo o time do Sixers. Ele é #5 em assistências secundárias (o passe para a assistência), e um número enorme desses passes levam a arremessos no aro ou de três pontos – os arremessos mais valiosos do jogo. Ele não só é ótimo dando a bola para jogadores, mas também em achar esses jogadores nas melhores situações possíveis. É um nível que poucos jogadores na NBA conseguem tocar, e algo de outro planeta para um calouro. Essa habilidade nos passes, sozinha, já faz de Simmons um dos melhores jogadores ofensivos de toda a liga. Simmons tem um papel total ofensivo ainda maior que Mitchell, e está executando essa função em um nível mais alto.

Defensivamente, Simmons também está em outro nível. Mitchel é um bom defensor para um calouro, mas Simmons já é alguém que vai receber – merecidamente – votos para times All-Defense esse ano. Ele tem o tamanho para defender quase qualquer jogador de garrafão, e velocidade e agilidade para defender armadores, um dos legítimos jogadores da liga capazes de defender qualquer posição. Simmons também combina uma enorme fisicalidade com sua avançada leitura e entendimento do jogo para começar a destruir os ataques as vezes ANTES deles iniciarem. A capacidade de ver e ler o jogo dois passos à frente também se apresenta desse lado defensivo, fazendo do australiano um terror nas linhas de passe. Pouca gente percebe, mas Simmons é um defensor de elite.

Outro fator diferencial a favor de Simmons, é meu ver, é seu enorme impacto em moldar a identidade de jogo de um time. Com Simmons de armador, o Sixers consegue colocar em campo uma hidra de jogadores gigantes e físicos que simplesmente não tem pontos fracos defensivos. Eles conseguem trocar a marcação em qualquer um, tem versatilidade única, e essa vantagem que eles ganham em tamanho faz deles um perigo nos rebotes e nas linhas de passe.

Simmons é o centro disso tudo por sua versatilidade ofensiva E defensiva, e isso gera um caos que é um dos segredos do sucesso de Philly: Depois de um arremesso errado, quando as marcações estão embaralhadas, cria-se um caos defensivo onde a defesa precisa tentar achar as marcações certas em velocidade, o que gera todo tipo de erro defensivo, missmatches e oportunidades para o ataque. Simmons é um monstro correndo com a bola em transição, e graças a essa versatilidade defensiva Philly muitas vezes pega os adversários com marcações trocadas – aumentando o caos para brilhar ofensivamente. Da mesma forma, o tamanho e versatilidade de Philly na defesa fazem deles quase imunes a esse tipo de semi-transição, já que cada um pode marcar quem estiver mais perto sem precisar ficar trocando. Joel Embiid pode ser o melhor jogador do Sixers, mas é Ben Simmons que permite a eles jogarem da forma como jogam – forma que levou o time a ser o #3 do Leste.

Donovan Mitchell teve um ano excelente, e é um jogador fantástico. Ele merece legítima consideração para os times All-NBA esse ano, e seria um vencedor extremamente digno para esse prêmio. Ele será, pelo menos, um múltiplo All-Star se continuar nessa trajetória. Mas Ben Simmons foi simplesmente um jogador melhor esse ano. O teste visual me diz isso, o raciocínio crítico também, e as estatísticas confirmam: embora eu não seja fã de estatísticas “gerais” no basquete, Simmons tem uma vantagem bem considerável sobre Mitchell (e qualquer outro calouro) em PER, Win Shares, VORP, BPM ou qualquer outra estatística que você queira olhar. Os números on-off court de Simmons e Mitchell foram ambos muito dependentes da presença de Embiid e Gobert em quadra, respectivamente, mas Simmons reverteu essa tendência jogando seu melhor basquete pós-All Star Game, e não atrapalhou sua candidatura ele ter levado o Sixers a 16 vitórias seguidas com média de 14-10-10 e 59 FG% SEM Embiid para arrancar rumo à #3 seed. Ele é meu calouro do ano.

Ballot final: 1. Ben Simmons; 2. Donovan Mitchell; 3. Jayson Tatum; 4. Kyle Kuzma; 5. Bogdan Bogdanovic.

Defensive Player of the Year

Em todos os meus anos fazendo essa brincadeira de dar os meus próprios votos para os prêmios, eu posso dizer com tranquilidade que nunca vi uma disputa que seja mais igual, parelha, 50-50 (ou sei lá, 20-20-20-20-20), com separação tão mínima quanto a de DPOY desse ano. A de Calouro do Ano ganhou mais atenção e foi mais polarizadora pelo altíssimo nível dos envolvidos, mas esse é o realmente prêmio mais impossível de decidir.

Joel Embiid e Rudy Gobert foram os melhores defensores dessa temporada num nível “por jogo”, mas ambos perderam bastante tempo com lesões, e isso importa. Al Horford foi o melhor jogador defensivo da melhor defesa da NBA, um monstro da defesa coletiva, mas é quem menos se destaca individualmente entre eles. Giannis Antetokounmpo foi o melhor defensor de perímetro da NBA e foi um monstro protegendo também o garrafão, mas seu time teve apenas a 17th melhor defesa da NBA. Anthony Davis foi também um polvo multidominante na defesa, mas o Pelicans ficou apenas 14th desse lado da quadra. Está realmente muito difícil escolher entre esses cinco, ou qualquer combinação deles você queira levar para suas avaliações finais. Mas esse é meu trabalho, então vamos pelo menos tentar.

O primeiro que eu eliminei foi Giannis, infelizmente, simplesmente porque eu não consegui dar o Defensive Player of the Year pra alguém que não conseguiu ter uma defesa acima da média da NBA. Não que isso seja culpa de Antetokounmpo: o grego fez sua parte e mais um pouco, e a defesa do Bucks é consideravelmente melhor com ele em quadra (embora ainda seja apenas média). Giannis faz tudo o que pode para isso: ele é o melhor defensor de perímetro E o melhor protetor de aro da equipe, defende cinco posições, e frequentemente está marcando o melhor jogador adversário mesmo com toda a carga que carrega no ataque. Sua flexibilidade defensiva permite que o Bucks jogue com diferentes formações e diferentes matchups defensivos conforme for melhor para a equipe, e os problemas defensivos do Bucks tiveram muito pouco a ver com o grego – quantas vezes na temporada de Milwaukee não aconteceu de Giannis marcar perfeitamente um pick and roll sozinho, só para algum companheiro errar a rotação para oferecer uma ajuda que não era necessária e assim ceder uma cesta fácil ao adversário? Giannis fez tudo que era humanamente possível ele ter feito, e a defesa não é culpa sua ser ruim.

Mas a falta de coesão, unidade e um plano defensivo adequado limitou muito o impacto coletivo que o brilhantismo individual de Giannis teve no lado defensivo da quadra. Isso pode parecer um pouco injusto, porque Giannis é assim “punido” por algo que outras pessoas fizeram (ou deixaram de fazer), mas quando a disputa é assim tão parelha a gente precisa entrar nesse nível mais crítico, e mesmo sendo uma desvantagem “externa” isso acabou impedindo que o impacto defensivo de Giannis fosse tão grande quanto o dos outros quatro nomes da lista – por isso ele fica de fora.

O segundo eliminado da disputa foi Horford, pelo motivo quase inverso: ele foi aquele cujo impacto mais dependeu dessas vantagens “externas” vindas do resto da equipe e do esquema tático. Não que Horford tenha sido, para usar uma expressão comum, quem “teve mais ajuda” – Embiid e Gobert ambos tiveram muita ajuda do resto do seu time também – mas o impacto defensivo de Horford foi quem mais pareceu vir do seu papel dentro de um esquema brilhante, mais do que seu brilhantismo individual (que também existiu, claro). Ele era a peça perfeita para fazer funcionar um grande esquema e foi fantástico executando isso no mais alto nível, mas a defesa de Davis, Embiid e Gobert de modo geral me pareceu existir em um plano mais “independente” dessa conjuntura externa do que Horford.

Então ficamos com três candidatos: Gobert, Embiid e Anthony Davis. E ai entra uma questão que não tem uma resposta real: o que importa mais, ser um defensor um pouco melhor, ou ter jogado mais jogos? Quantos jogos você pode perder e ainda ganhar o prêmio de DPOY sobre alguém que defendeu 85% tão bem quanto você, mas durante a temporada toda? Onde é essa lista? Não existe como dizer.

Gobert e Embiid são defensores melhores do que Anthony Davis: eles tem números melhores protegendo o aro, cometem menos erros e são jogadores mais sólidos em diversos fundamentos. Sua presença e verticalidade depende menos da mobilidade e do atleticismo, e por esse motivo raramente saem de posição. Davis é melhor trocando a marcação (embora Embiid seja muito subestimado nesse sentido), mas Gobert e Embiid são jogadores melhores e mais completos desse lado da quadra. Mas do outro lado, Davis jogou 75 jogos e 2700 mil minutos no total, enquanto Gobert e Embiid perderam 26 e 19 jogos (respectivamente) e não mais que 1900 mil minutos. Então a superioridade de Gobert e Embiid foi maior indexando por jogo ou por minuto, mas será que o TOTAL da defesa de Davis, impactando por mais tempo, não lhe deu uma vantagem na disputa?

É impossível dizer. Mas eu acabei colocando Davis em terceiro por um motivo semelhante ao de Giannis: a defesa coletiva do seu time não foi boa suficiente. De novo, a culpa não é de Davis: ele sozinho foi uma força monstruosamente dominante, ainda mais impactante do que o grego em Milwaukee, e para um elenco muito mais limitado defensivamente. Depois da lesão de Cousins, Davis teve média de 2 roubos e 3 tocos por jogo, e liderou a liga inteira no segundo quesito. Ele é como uma divindade budista de muitos braços que fecha sozinha uma parte da quadra, e tudo que entra nesse raio vira uma chance em transição para New Orleans (o Pelicans foi o time que jogou mais rápido na NBA e boa parte disso veio dos turnovers forçados por Davis). Ele talvez seja a força mais destrutiva da NBA nesse sentido.

Mas tendo que fazer demais para um elenco defensivamente limitado também significa que Davis precisa se esticar mais que o ideal e isso leva também a mais erros e mais lances de passividade, falhas na sua defesa que os outros jogadores não tem. Parte disso é a influência externa que não permitiu que Davis tivesse um impacto maior, enquanto a de Embiid e Gobert permitiu que ambos maximizassem seu impacto, mas para dar o prêmio eu preciso olhar para o que foi feito de fato, não para o que poderia ser feito em outra situação melhor. É injusto, mas em uma disputa tão apertada, isso conta. Se quiser dar o prêmio para Davis pelo maior papel em uma defesa maior, eu não vou te criticar. Qualquer um desses cinco seria merecedor.

Então ficamos com a disputa final entre Gobert e Embiid, e foi exatamente essa disputa que eu me referia quando disse que NUNCA vi uma decisão tão igual e impossível de separar pelo prêmio.

Quando eu comecei a estudar para esse prêmio, eu entrei com a percepção de que a defesa indexada, por jogo/minuto em quadra, de Rudy Gobert era superior à de Joel Embiid, mas que Embiid teria a vantagem de ter jogado sete jogos a mais, entrando em uma questão semelhante à descrita antes: o quão melhor você tem que ser para compensar o tempo perdido?

Mas quanto mais eu estudava, via jogos, vídeos e olhava dados, conversava com outras pessoas, etc, mais eu via que eu estava errado em ambas as hipóteses: Embiid jogou 7 jogos a mais mas com menos minutos, então os minutos totais acabaram ficando muito mais próximos do que pareciam à primeira vista (1900 a 1800), não dando quase nenhuma vantagem ao camaronês. Ao mesmo tempo, eu fiquei um pouco surpreso de comprovar que Embiid não tinha sido, de modo algum, inferior a Gobert considerando seu impacto defensivo.

Ambos tem estilos parecidos, e ambos são a fundação defensiva da sua equipe. Os dois estão entre os melhores protetores de aro da NBA, monstros no interior que defendem o aro e afetam outras dezenas de arremesso que não chegam a ser dados simplesmente porque o ataque não tem coragem de ir para cima desses dois. Tanto Utah como Philadelphia sabem explorar muito bem essa vantagem na sua linha dos fundos, trocando a marcação na frente e afunilando a infiltração para seu pivô eliminar aquela ameaça com tocos e roubos de bola. Embiid é melhor trocando a marcação e defendendo o perímetro, e saindo de posição para recuperar; Gobert é um pouco mais ameaçador na região ao redor do aro intimidando adversários. São dois monstros defensivos, ancorando duas das melhores defesas da NBA em meio a um bom conjunto e bom esquema tático, duas forças extremamente destrutivas que alteram completamente a geometria de uma quadra de basquete desse lado da quadra e destroem qualquer plano ofensivo.

Quanto mais eu estudava, mais eu chegava à conclusão que não era possível dizer qual dos dois tinha sido melhor esse ano. Era extremamente igual, extremamente próximo, sem nada de concreto separando os dois. Os números individuais de Embiid são um pouco melhores que os de Gobert; os números coletivos favorecem um pouco mais o francês (embora, valha notar, eles vieram contra a parte fácil do calendário de Utah, e os de Embiid contra a parte difícil do de Philly). Escolher entre um e outro foi uma das tarefas mais impossíveis de 8 anos de site.

Por fim, eu acabei indo com Embiid, apenas porque seus números individuais são um pouco melhores: ele lidera toda a NBA em reduzir o eFG% dos adversários sendo o defensor mais próximo, é #3 em proteção de aro (Gobert é 10th), e está no 83rd percentil defendendo pick and roll, consideravelmente acima de Gobert. Eu não acho que as estatísticas fazem jus à defesa de Gobert ou que a diferença entre eles seja como esses números sugerem, mas considerando o quão parelhos esses dois eram em qualquer ótica que eu usava – especialmente assistindo uma tonelada de jogos e vídeos de ambos – existe um pooooouco mais de evidência tangível a favor de Embiid esse ano, e em uma disputa que foi tão impossível decidir, foi aquele 0,001% a favor do camaronês que acabou decidindo meu voto. Mas não tem como ir errado com qualquer um dos dois – ou qualquer um dos cinco.

Ballot final: 1. Joel Embiid; 2. Rudy Gobert; 3. Anthony Davis; 4. Al Horford; 5. Giannis Antetokounmpo.

Most Valuable Player (MVP)

Minha grande dúvida quando comecei a pensar o prêmio de MVP durante toda a temporada era simples: o que fazer com LeBron James? Como avaliar o melhor jogador do mundo jogando com o freio de mão puxado, por um time medíocre com uma série de dúvidas e problemas extra quadra? Não é nem de longe tão fácil quanto parece, e se alguém te disser que é, então essa pessoa não pensou nem de longe o suficiente nesse prêmio. Foi de longe onde eu mais perdi tempo pensando e analisando.

Individualmente, LeBron foi brilhante como sempre. É possível argumentar que essa tenha sido sua melhor estatística ofensiva de um ponto de vista individual, e seus números na sua décima quinta temporada são surreais: 27,5 pontos, 9 assistências, 9 rebotes, 54 FG% enquanto jogou TODOS os 82 jogos do ano e liderou a liga em minutos. Sua capacidade de armar o jogo e dar passes brilhantes, sempre um dos seus maiores pontos fortes, atingiu um novo nível essa temporada. LeBron continua extremamente eficiente no ataque, pontuando quando quer. Por qualquer ótica possível, é uma temporada fantástica no currículo de uma carreira ainda mais impressionante. Alguns até afirmam que seja a melhor temporada da sua vida (eu discordo, mas tudo bem).

Sendo assim, uma coisa me incomoda: se você tem um jogador que é inquestionavelmente o melhor da atualidade (e um dos melhores da história do basquete) tendo a sua melhor temporada da carreira, jogando todos os seus jogos e 37 minutos por jogo… o seu time não deveria ser melhor do que 50 vitórias e a #4 seed em um fraco Leste?

Eu sei que o Cavs desse ano (tirando LeBron) não é um bom time e teve vários problemas (chegaremos lá), mas nós já vimos LeBron levar times piores nas costas a alturas bem maiores antes. Esse time supostamente foi construído em torno das forças de LeBron: espace a quadra e deixe LeBron fazer seu trabalho. Se LeBron está correspondendo com seu melhor ano, por que então ele não foi melhor do que 50 vitórias, #4 do Leste, e #13 em Net Rating? Isso não é para sugerir que LeBron seja um problema para o Cavs ou que o time seria melhor sem ele, como alguns gênios da interpretação de texto entenderam quando eu levantei a questão no Twitter. Sem ele, o Cavs não iria nem para os playoffs. O ponto é, na verdade, muito mais simples: será que o impacto total de LeBron James foi menor do que a gente imagina?

O grande problema do Cavaliers desse ano foi a defesa: o Cavs terminou o ano com a segunda PIOR defesa de todo o basquete, com 109,5 pontos cedidos a cada 100 posses de bola, pior do que Bulls, Kings, Nets, Hawks e qualquer time que não seja o Suns. E sabe quem foi um enorme problema defensivo para o Cavs esse ano? LeBron James. A defesa do Cavs sem LeBron foi surpreendentemente sólida, cedendo pontos ao nível de uma defesa Top10 da NBA (104,9 D. Rtg.). Quando James entrava em quadra, essa defesa despencava para de longe a pior da NBA, com Defensive Rating de 110,9. Você pode argumentar que o elenco do Cavs não era bom defensivamente e esse era problema, e tem sua verdade, mas é incrível como os números de todos os defensores ruins do elenco despencavam quando jogavam com LeBron.

O Cavs com Kevin Love, supostamente o grande problema defensivo de Cleveland, jogando sem LeBron tinha Defensive Rating de 101,4 – quando LeBron jogava com Love, isso despencava para 112,0. JR Smith sem LeBron tinha Defensive Rating de 106,1; com James isso despenca para 113,7. Não importa qual dos defensores ruins de Cleveland você escolhe – Derrick Rose, Kyle Korver, qualquer um – os números defensivos pioram consideravelmente com LeBron em quadra.

Claro que on-off ratings são perigosos, e em si só não podem ser confiados como ferramenta de avaliação – eles incluem muitos ruídos de lineups e amostras pequenas que podem nos dar resultados enganosos ou falsos. Mas, nesse caso, eles estão apenas confirmando e dando uma base factual para algo que o teste visual já estava nos dizendo: que LeBron James foi um dos piores defensores da NBA essa temporada. Visivelmente desinteressado e lento, não fazendo rotações ou ignorando jogadores, não correndo em transição, tomando decisões erradas – tudo que LeBron fazia esse lado da quadra durante a GRANDE parte do ano foi prejudicial para o Cavs, individual e coletivamente. Os dados avançados só nos corroboram aquilo que podemos muito bem observar quando olhamos para Cleveland: LeBron foi uma grande parte desses problemas defensivos. A coluna é um pouco antiga porque é do começo do ano, mas esse artigo do Matt Moore, então da CBS americana, ilustra muito bem como LeBron foi parte integral desse problema defensivo de Cleveland – que, por sua vez, gerou grande parte dos problemas que fizeram da temporada do Cavs tão decepcionante.

Também tem a questão do esforço, que foi um dos problemas do Cavs o ano todo: falta de energia, falta de vontade, não jogando com tudo de si. Muito disso vem do seu melhor jogador, LeBron, jogando assim. Não que eu culpe LeBron por não querer jogar para valer um jogo numa terça feira a noite em Milwaukee – James vem de sete finais seguidas e sabe que o que importa é o que acontece em Junho, então ele opta por poupar suas energias – mas querendo ou não isso tem um efeito no resto do time e na forma do Cavs jogar e cria um exemplo negativo para o resto do time, um efeito cascata que foi bastante prejudicial durante o ano. É uma decisão, claro, pensando nos playoffs (e até correta), mas que cobra seu preço na temporada regular, que é o que nós precisamos avaliar para o prêmio de MVP (esse é parte do motivo pelo qual você não viu nenhum jogador do Warriors nessa lista, aliás).

Então sim, LeBron James foi brilhante em 2018. Foi eficiente e dominante como sempre, e seus passes atingiram um novo nível esse ano. Mas quando pensamos na totalidade do seu impacto para o time – o que, no fundo, é o que importa no prêmio de MVP – ele não foi tão grande quanto suas performances individuais e seus números parecem sugerir. Por todas as imensas coisas positivas que LeBron trouxe ao Cavs – se não tivesse trazido, não estaria na conversa para MVP – ele também tirou muita coisa de cima da mesa esse ano com sua péssima defesa, falta de energia, e vários dos problemas de vestiário e entrosamento em Cleveland que limitaram e fizeram desse time tão decepcionante. Se ele foi um dos melhores jogadores ofensivos da liga, ele também foi um dos piores defensivos, e isso conta. Isso não é negar o talento de LeBron ou diminui-lo – James está fazendo muito disso pensando em Junho – mas analisando objetivamente eu continuo voltando para as mesmas coisas me dizendo que sua temporada foi um pouco abaixo do que parece à primeira vista.

Uma última coisa. Eu sei que falei que on/off ratings não contam toda a história e podem ser perigosos, o que é verdade. Mas veja os números de Net Rating do Cavaliers com LeBron James em quadra e fora dela nos últimos 4 anos (desde que voltou a Cleveland) e me diga que não tem algo um pouco diferente acontecendo esse ano:

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Por tudo isso que eu disse eu acabei decidindo por colocar James atrás de James Harden, meu MVP, e Anthony Davis no meu ballot. Davis, a meu ver, fez mais e teve mais impacto dos dois lados da quadra para um time inferior do Pelicans que deveria ter desmontado com a lesão do seu segundo melhor jogador, e ao invés disso se galvanizou e viu Davis elevar seu nível e carregar esse time nas costas no fortíssimo Oeste. LeBron entra um lugar na frente de Giannis, que você pode até montar um argumento que foi superior a James em impacto esse ano por conta da sua defesa, mas que não é o playmaker que LeBron é e não conseguiu levar um elenco de apoio melhor além da #7 seed. Lillard, o homem por trás da incrível arrancada do Blazers na reta final da temporada, fica com o quinto lugar.

O MVP desse ano fica, é claro, com James Harden. Eu inclusive votei em Harden para levar o prêmio ano passado (ainda acho a decisão correta em retrospecto), mas esse ano não vejo ninguém tirando do barba. Seus números são pau a pau com LeBron – 30 pontos (líder da NBA), 9 assistências, 45-37-86 nos arremessos, e os melhores números em jogadas de isolação desde que esses números começaram a ser medidos (Harden também lidera a NBA em PER). Sua eficiência e produção tem sido de outro planeta, e ele tem sido o melhor jogador e maestro do melhor time da NBA. Seu ataque foi, se não o melhor, um dos 3 melhores da NBA essa temporada, e sua defesa melhorou consideravelmente nos últimos anos, ao ponto que Houston tem usado ela como uma força essa temporada.

Existe obviamente bastante valor em fazer de um time ruim ou time sólido ou bom e levá-lo para os playoffs, como fizeram Davis e LeBron. Sem suas estrelas, esses times estariam na loteria ou mesmo no fundo da NBA. Mas as vezes pessoas gostam de desmerecer jogadores como Harden, que jogam em um time bom que sobreviveria sem ele, esquecendo que pegar um time bom e fazer dele histórico também é uma forma de causar impacto, e a meu ver a mais difícil e importante que existe. Harden foi o melhor jogador de 2018, e teve o maior impacto em fazer de um bom time do Houston Rockets um time memorável para a história da liga. Ele é o MVP.

Ballot final: 1. James Harden; 2. Anthony Davis; 3. LeBron James; 4. Giannis Antetokounmpo; 5. Damien Lillard.

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