Entendendo uma semana maluca na NFL

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Uma imagem que ainda vou demorar muito para me acostumar (Foto: NFL Twitter – http://www.twitter.com/NFL)

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Semana passada foi um tanto quanto intensa do ponto de vista de quem acompanha NFL.

A impressão é que times da NFL parece que perderam a timidez de fazer trocas, e começaram a enxergar essas movimentações (junto a uma melhor compreensão do valor de escolhas de Draft) como um meio regular para reforçar a equipe ou se preparar salarialmente para o futuro. Normalmente, trocas na offseason eram quase que exclusivamente feitas no Draft, para subir e descer nas posições do recrutamento, mas era questão de tempo até os jogadores entrarem na brincadeira. E isso levou a um número extremamente alto de trocas, muito maior do que qualquer offseason que eu me lembre, e isso pode ser apenas a ponta do iceberg.

E não é apenas o aumento na quantidade de trocas: a relativa “abertura” desse mercado de trocas significa para os times mais avenidas de colocar em prática projetos mais cedo do que o normal, e com mais opções, o que significa que temos times já agindo de forma agressiva para viabilizar uma visão antes que o mercado sequer tenha chance de se formar.

Então essa abertura para trocas e alguns outros fatores levaram juntos a uma das semanas mais malucas e intensas que eu lembro de ver na NFL: múltiplas trocas, cortes, contratações bombásticas, e times fazendo uma sequência de movimentações de uma sentada só. Agora que a poeira baixou um pouco – antes dela voltar a explodir com força quando abrir a free agency hoje a tarde – vamos dar uma olhada para tentar entender exatamente o que aconteceu nessa semana maluca, olhando para três times que fizeram grandes movimentações nesses últimos dias – e falar rapidamente também da primeira grande contratação bombástica da offseason.

Para mais comentários sobre as próximas contratações conformem forem saindo, recomendo que nos sigam no Twitter: www.twitter.com/tmwarning .

Vamos começar então pelo time que dominou as manchetes por um dia inteiro…

Cleveland Browns decidiu dominar a offseason

Eu nunca na minha vida achei que escreveria DUAS colunas sobre o Browns no espaço de uma semana (mesmo a segunda delas sendo dividida com outros times), mas aqui estamos. Eu escrevi quarta feira passada sobre como Kirk Cousins no Browns era um cenário perfeito para Cleveland, e como uma franquia com o histórico de fracassos do Browns precisava pensar fora da caixa e fazer grandes movimentos para quebrar essa inércia e romper com o passado.

O cenário de Cousins no Browns foi pela janela um dia depois, infelizmente, mas o novo GM John Dorsey parece concordar com um dos pontos centrais da minha coluna: a necessidade do Browns de mudar não só seu elenco, mas sua imagem ao redor da liga. Durante um período de 24 horas entre quinta e sexta feira, o time fez QUATRO trocas que mudaram consideravelmente sua situação e, de certa forma, serviram para colocar o Browns como um time a se ficar de olho, dominando as manchetes e as conversas da NFL pela primeira vez em muito, muito tempo por algo que não fosse negativo.

As trocas tiveram claramente um duplo propósito: primeiro, o propósito básico de montar o time que a diretoria de Cleveland quer ver em campo ano que vem e até pro futuro. Algumas trouxeram jogadores que, como vamos falar daqui a pouco, servem um propósito de montar um time competitivo que tire o time dessa espiral de fracassos e de ao time a dignidade necessária para dar os próximos passos na liga e atrair free agents futuramente. Mas além disso existe uma agressividade explícita que manda um sinal bem claro para o resto da liga, incluindo agentes e jogadores, de que o Browns está em uma nova época, e disposto a ser agressivo em busca de ser competitivo e romper com seu passado. Em suma, aquela mesma coisa que eu falava na coluna de quarta feira passada, mas ao invés de fazer isso indo atrás do melhor QB free agent em anos, eles fizeram isso através de várias trocas menores. O timing dessas trocas, às vésperas da abertura do mercado de free agents, não é coincidência: como diria o Coringa de Heath Ledger, não se trata de dinheiro – se trata de passar uma mensagem.

A primeira troca do Browns foi a aquisição de Jarvis Landry, WR que o Dolphins não queria manter mas usou a franchise tag para não perder de graça, em troca de uma escolha de quarta rodada de 2018 e uma de sétima rodada de 2019. Landry é um WR bem divisivo entre fãs e analistas: um jogador de alta produção, #3 em recepções e #10 em jardas em toda a NFL desde 2015 (inclusive liderando a liga em recepções em 2017), mas com produtividade relativamente baixa, com apenas 10,3 jardas por recepção, muitas vezes acumulando um número muito grande de passes curtos e forçados pela falta de opção do ataque do Dolphins que inflam seus números. Os fãs de Landry citam sua capacidade de converter recepções apertadas, garantir ganhos consistentes e mover as correntes funcionando como as vezes a única válvula de escape para uma série de ataques estagnados de Miami; seus detratores apontam para sempre alinhar no slot, alguma dificuldade de conseguir separação, e que muitos dos seus números se assemelham mais aos de um running back recebedor de passes como Theo Riddick do que a um WR de alto nível.

Eu pessoalmente fico mais no primeiro campo: apesar das limitações de Landry, ele foi muito vitimado pelas limitações dos seus companheiros em Miami, onde ficou limitado a um papel de válvula de escape para Cutler e Tanehill e não foi tão bem utilizado como poderia. Mas mesmo se for mantido como slot receiver em Cleveland, Landry é um dos melhores da liga nisso, uma opção excelente nas rotas mais curtas para continuar movendo as correntes, encurtando descidas e conseguindo conversões importantes. O preço de uma escolha de fim de quarta rodada é bem em conta, e sem dúvida um ótimo negócio do Browns.

E, ainda mais importante, ele oferece a Cleveland proteção para sua situação de WRs: o time em teoria tem hoje Josh Gordon voltando de múltiplas temporadas fora da liga, e Corey Coleman, ex-1st round pick que deve jogar menos no slot e mais na parte externa do campo com Landry na cidade. Se todo mundo ficar saudável, ótimo: entre esse trio de WRs e o TE David Njoku esse tem tudo para ser um dos melhores grupos de recebedores, e Landry vai causar muitos estragos usando o espaço criado pelas rotas longas de Gordon. Mas Gordon ficou quase três anos inteiros longe da NFL por conta de problemas com substâncias de abuso, e embora fosse um dos 3 melhores WRs da NFL no seu auge, é impossível dizer o quanto desse jogador Gordon conseguirá ser em 2018 para frente, ou mesmo se continuará sempre disponível para o Browns. Da mesma forma, Coleman perdeu 13 jogos com lesões em dois anos de NFL, e tem encontrado dificuldade para conseguir uma sequência dentro de campo. Landry oferece uma boa opção de proteção para essas situações, sendo um WR de alto nível que pode assumir parte da produção caso um deles (ou ambos) caso o risco se torne realidade. O maior problema de Landry no momento é o salário, já que a franchise tag paga a Landry 16 milhões em 2018 (o que ele não vale) e sendo ela a base para a negociação de uma eventual extensão o Browns provavelmente terá que pagar acima do seu valor real para manter o jogador por mais tempo, mas esse é um custo que o Browns – time com mais espaço salarial na NFL – pode assumir nesse momento. No geral, uma contratação muito boa e que abriu olhos ao redor da liga.

A segunda troca foi a que eu menos gostei: o Browns mandou a primeira escolha da terceira rodada, #65, para o Bills em troca de Tyrod Taylor. A lógica é bem clara: Taylor tem mais um ano de contrato e é um QB sólido, que pode servir como “ponte” por um ano enquanto o time desenvolve seu próximo QB, provavelmente vindo do Draft. Com as peças certas ao seu redor – e com a chegada de Landry e a perspectiva de selecionarem Saquon Barkley no Draft, essas peças parecem que estarão lá – Taylor é uma opção de alto piso, especialista em evitar turnovers, que pode ajudar Cleveland e vencer alguns jogos no curto prazo. Dentro de campo, eu não tenho problema com a aquisição exceto a questão tática – Taylor não é um QB que se encaixa nos moldes de um passador “tradicional” e Hue Jackson tem sido horrível no Browns desenvolvendo ataques não-convencionais que encaixem nas forças dos seus quarterbacks – mas é uma aquisição que faz sentido, um jogador eficiente que consegue manter o time funcionando em uma função secundária ao redor do bom número de playmakers que o time acumulou. Taylor vai ajudar o Browns a vencer jogos em 2018, e isso importa.

O que eu não gosto dessa troca é o custo: a primeira escolha da terceira rodada é um preço alto demais a se pagar por um QB médio que vai ficar no seu time apenas um ano, especialmente por um QB que o Bills tinha zero vontade de manter no time e em um mercado razoavelmente forte em opções “ponte”. Tyrod é provavelmente um jogador melhor do que algumas opções no mercado que poderiam fazer o papel de QB ponte por um ano, como Josh McCown ou AJ McCarron, mas nenhum deles é um jogador que vai mudar seu time de patamar, e McCown ou McCarron podem oferecer 80% do que Taylor oferece sem custar essa escolha valiosa de terceira rodada. O time poderia até mesmo oferecer um contrato caro de um ano para Teddy Bridgewater com a promessa de usá-lo como QB titular esse ano, permitindo ao ex-Vikings reconstruir seu valor sem precisar pagar a escolha #65. A intenção do Browns é clara, mas tinha formas de conseguir esse objetivo sem pagar tão caro.

Mais do que qualquer outro movimento, esse foi de longe o que mais pareceu ser menos pensando no que acontece dentro de campo e mais pensando em mandar a mensagem correta fora dele. Pagando esse preço premium por um QB sólido, a mensagem do Browns foi clara: nós estamos cansados de ser ruins, nós queremos e estamos prontos para ganhar jogos agora, e estamos dispostos a pagar por isso. O Browns não pagou aquela escolha só por um QB “ponte”, pagou ela exatamente por aqueles 20% a mais que Taylor trás por acreditar que sua mensagem fica muito mais forte assim, tanto agora como vencendo talvez um ou dois jogos a mais ano que vem. Eu não acho a melhor forma de passar essa mensagem ou usar seus recursos (eu iria novamente atrás de Cousins com Landry no bolso e a promessa de um franchise RB em Barkley com a escolha #1 do Draft), mas o Browns atingiu seu objetivo.

O time fez ainda outras duas trocas menores: primeiro trouxe Damarious Randall do Packers, mais as escolhas de quarta e quinta rodada de Green Bay, em troca de DeShone Kizer, QB escolhido na segunda rodada do Draft do ano passado, e das escolhas de quarta e quinta rodada do Browns. O preço não é tão grande, e eu gosto de Randall: ele foi apenas médio como CB convertido em Green Bay, mas deve voltar a jogar de free safety em Cleveland, o que por sua vez liberaria Jabrill Peppers para jogar de strong safety mais perto da linha de scrimmage, onde ele foi mais eficiente e parece ser sua melhor posição – um duplo ganho para o Browns.

A última troca, que veio um dia depois, foi mandar o DT Danny Shelton e uma escolha de quinta rodada de 2019 para New England em troca da escolha de fim de terceira rodada de New England. Eu não gosto também dessa troca: Shelton nunca desenvolveu como pass rusher pelo interior da linha mas ainda era um sólido titular e um dos melhores defensores contra a corrida da NFL, e achei um retorno bem fraco para um bom jogador. Aqui mais uma vez a motivação parece ser mais extra-campo, com o Browns se livrando dos últimos resquícios de seu passado fracassado: Shelton era a última escolha de primeira rodada sobrando dos regimes do Browns entre 2009 e 2015, antes da chegada de Sashi Brown.

Se você está contando, o Browns mandou embora uma 3rd round pick, duas 4th round picks, uma 5th round pick, uma 5th round pick de 2019, uma 7th round pick de 2019, Danny Shelton e DeShone Kizer em troca de Jarvis Landry, Demarious Randall, Tyrod Taylor, uma 3rd round pick, uma 4th round pick e uma 5th round pick. Tudo em menos de 24 horas.

Essa postura agressiva e de contratar por resultados imediatos é um contraste gritante com a gestão anterior sob Sashi Brown, que se preocupou em acumular escolhas de Draft e espaço salarial para o futuro, mas na verdade não é mais uma mudança radical do que uma continuação: essa agressividade do Browns não seria possível sem o enorme arsenal de capital no Draft que Brown acumulou, e a base deixada por Brown parece ser aquela que Dorsey está considerando indo para frente, rompendo ao invés disso com os resquícios da gestão anterior.

O que vem a seguir para o Browns é, talvez, a parte mais interessante. O time ainda tem quatro das primeiras 36 escolhas do Draft, incluindo a #1 e a #4. A mensagem que o time quis passar com essa agressividade parece ter sido ouvida por free agents e seus agentes ao redor da NFL, e não fiquem surpresos se o Browns for um jogador muito mais agressivo que o antecpado nessa free agency, pois mesmo com Landry e Taylor o time ainda tem um dos maiores espaços salariais da liga.

E embora Taylor seja jovem o bastante para dar a opção do Browns não pegar um QB no topo do Draft, ele também dificilmente é a solução para o time querendo tão agressivamente subir de patamar. O mais provável para Abril é que uma das escolhas de topo de Cleveland seja mesmo para um jovem QB a ser desenvolvido, e a outra oferece a Cleveland um monte de opções. Trocar para descer com um time como o Bills, que deve estar em busca de um QB no Draft? Pegar Saquon Barkley #1, o que faria sentido com o núcleo ofensivo do time (e Taylor) e pegar o melhor QB disponível na #4 apesar disso não combinar muito com o MO de Dorsey? Trazer Randall parece afastar um pouco o time de Minkah Fitzpatrick, mas Bradley Chubb no #1 e Quenton Nelson no #4 ainda podem ser opções. Ainda não sabemos, mas as opções estão lá, e talvez pela primeira vez em anos o torcedor do Browns deve estar sentindo algum otimismo com as movimentações da franquia – que é exatamente o que o GM John Dorsey estava buscando. Missão cumprida: o Browns foi o time mais interessante da offseason até aqui.

O fim de uma era em Seattle

Entre 2012 e 2016 o Seattle Seahawks teve talvez a mais impressionante sequência defensiva de toda a história da NFL. Desde 2012, Seattle terminou #2, #1, #1, #4 e #6 em DVOA defensivo até que lesões enfim derrubaram a defesa em 2017 – você vai encontrar poucas sequências defensivas tão consistentemente dominantes. Na verdade, é possível argumentar que essa tenha sido a melhor defesa da história do esporte, como fez aqui o excelente Bill Barnwell.

E a força motriz dessa defesa foi a famosa Legion of Boom, a secundária composta principalmente por Richard Sherman, Earl Thomas e Kam Chancellor que foi o terror dos QBs adversários durante esses cinco anos. Essa secundária, que contou com dois Hall of Famers em Thomas e Sherman e mais um Pro Bowler em Chancellor – além de várias peças menores mas úteis como Jeremy Lane ou Byron MaxWell – também teve o benefício de jogar atrás de um pass rush dominante ancorado por Cliff Avril e Michael Bennett.

Mas 2017 mostrou um pouco sinais de declínio nessa unidade em meio a múltiplas lesões, e nessa offseason Seattle enfim colocou um ponto final no que foi de longe a era mais vitoriosa e importante da história da franquia ao iniciar o inevitável mas ainda doloroso desmanche da Legion of Boom e de boa parte do núcleo defensivo da sequência impressionante de Seattle.

Muitos torcedores demonstraram reações negativas a uma sequência de movimentos que começou com a suposta disponibilidade do fantástico e subestimado Earl Thomas para uma troca, seguido da troca do também subestimado Michael Bennett para Philadelphia e da dispensa de Richard Sherman, que foi parar no rival 49ers. Os próximos passos não devem ser mais fáceis de digerir: Cliff Avril provavelmente deve se aposentar com uma lesão no pescoço, e ninguém sabe o que vai ser de Kam Chancellor, que está lidando com suas próprias lesões que ameaçam sua carreira.

Por mais difíceis que sejam essas movimentações, e por mais confuso que os torcedores de Seattle estejam nesse momento, esses movimentos tem um sentido. E o principal motivador é a questão salarial: Seattle entrou na offseason com uma das piores e mais apertadas situações salariais de toda a liga, e precisando desesperadamente cortar salários. E o problema que compõe essa questão é que o Seahawks, apesar de ainda bom, é um time com enormes buracos ao longo do seu elenco, em especial no ataque, que foram expostos em 2018. E, sem dinheiro, o time não tem como adereçar essas deficiências em um momento que a NFC West fica cada vez mais forte.

A verdade é que Seattle tem uma folha salarial extremamente desbalanceada, muito focada na defesa e com poucos gastos e espaço em outros lugares. Durante anos, isso não foi problema: a defesa e Russell Wilson eram dominante suficiente para compensar isso com folgas, e o resultado final ainda era muito positivo, mesmo que muitas vezes (AKA playoffs) a falta de solidez em áreas como a linha ofensiva tenha se mostrado o grande problema da equipe. Mas ainda fazia sentido manter esse gasto intacto considerando o quão longe o time conseguia chegar com a defesa.

E esse foi provavelmente o primeiro problema: a defesa agora não é mais tão boa como era antes. Saudável, provavelmente ainda é das melhores da NFL, mas uma série de lesões e queda de rendimento devido a idade roubou aquela eficiência de extrema elite de outros anos. Claro que Seattle poderia apostar em uma recuperação à forma em um 2018 mais saudável, mas dai entra um segundo problema: uma sequência de fracassos no Draft dos últimos anos em Seattle, que roubou ao time novas peças jovens e baratas que possam servir de base para o futuro e deixou o time quase desprovido de jovens talentos. Apostar então na manutenção do núcleo defensivo caro atual era uma aposta de alto risco sem uma base jovem que poderia funcionar em caso de plano B – falhe nessa aposta, e Seattle estava colocando em enorme risco todo seu futuro. Isso levou o time a uma escolha difícil, mas possivelmente acertada a essa altura: desmontar seu caríssimo núcleo veterano e fazer não uma reconstrução, mas uma leve reformulação.

Supostamente alguns problemas de vestiário contribuíram para a saída de alguns veteranos como Sherman e Bennett, como forma de renovar o ambiente interno do clube, mas dificilmente isso é razão pra você trocar dois jogadores tão importantes assim. O motivo foi financeiro e dentro de campo, principalmente: Bennett já tinha começado a mostrar declínio em 2017, e trocá-lo economizou 7 milhões para Seattle e ainda ajudou o time a repor seu capital de Draft. Sherman foi o coração e a alma dessa defesa dentro e fora de campo (embora seu melhor jogador fosse o pouco reconhecido Thomas), mas já vai fazer 30 anos e vindo de uma lesão grave no tendão de Aquiles era um risco grande que Seattle não estava disposto a pagar tanto dinheiro – cortar o futuro Hall of Famer trouxe um alívio de mais de 11 milhões para a folha salarial de Seattle, e a franquia ainda estava disposta a um novo contrato com o veterano por menos dinheiro. Seattle deve economizar mais 7 milhões com a saída de Avril, e uma eventual troca de Thomas colocaria a franquia com quase 47 milhões de espaço salarial – espaço de sobra para o time reforçar e rebalancear seu elenco em uma nova direção.

Isso tem, é claro, um custo: Thomas ainda é possivelmente o melhor safety da NFL (e duvido que seja mesmo trocado), e o time precisa ainda repor a produção de nomes como Sherman, Bennett e Jeremy Lane. Parte desse novo espaço vai ser usado para trazer novos nomes, e nada garante que eles sejam tão bons ou capazes de manter a produção quanto os veteranos que saíram. Mesmo que a defesa possa manter um bom nível, não vai ser aquele nível destruidor de mundos que foi o segredo do sucesso da franquia durante tanto tempo. Espere, em contrapartida, que Seattle gaste boa parte desse capital em algo que evitou como a praga durante os últimos anos: ajuda ofensiva para Russell Wilson, em especial adquirindo ajuda na linha ofensiva (por anos uma das piores da NFL) e no corpo de wide receivers.

Seattle fez a coisa certa, por mais difícil que seja, mas ainda é algo bem difícil de engolir considerando que parte do motivo dessa reformulação foi uma sequência de péssimos Drafts, extensões mal pensadas (a de Kam Chancellor sendo de longe a pior), e contratos que resultaram em fracassos na free agency (Luke Joeckel, alguém?). Seattle está pagando o preço pelos seus próprios erros passados, e embora ainda tenha uma legítima superestrela na posição mais importante do jogo em Russell Wilson não vai ser uma surpresa ver o Seahawks cair consideravelmente nos próximos anos em meio a uma NFC West que promete ser novamente a divisão mais forte da NFL.

Los Angeles quer TODOS seus cornerbacks do mercado

Por falar em times da NFC West que chamaram a atenção na offseason, que tal o Rams, que adquiriu duas estrelas na posição de CB no momento que o 49ers parecia emergir como o queridinho da divisão para 2018?

A aquisição de Marcus Peters e Aqib Talib foram as movimentações mais comentadas do Rams, mas não foram as únicas. Na verdade, as duas fazem parte de uma série de quatro trocas para Los Angeles que se encaixam todas em um mesmo cenário salarial cada vez mais complicado.

Peters foi sem dúvida a grande aquisição do Rams para esse ano. Um dos melhores CBs da NFL ainda em um contrato de calouro que vai lhe pagar 1,7 milhões esse ano apenas, Peters tem 19 interceptações e 55 passes defendidos desde que entrou na NFL três anos atrás, melhor marca entre CBs no período. Peters é um legítimo ball hawk, um jogador que sempre vai atrás da bola e sai com muitas interceptações, mesmo que frequentemente ao custo de ceder grandes jogadas também. Peters supostamente era um grande problema no vestiário do Chiefs, que não parecia muito disposto a lhe pagar depois que a mamata desse contrato de calouro acabasse, o que explica o preço relativamente baixo que o Rams pagou pela estrela: uma escolha de quarta rodada de 2018 e uma de segunda rodada de 2019.

O Rams seguiu isso adicionando também Aqib Talib, CB do Broncos. Talib era esperado que fosse ser uma casualidade da situação salarial de Denver, que precisava abrir mais espaço na sua folha enquanto arrumava mais minutos para o jovem e promissor Bradley Roby na secundária. Denver supostamente chegou a um acordo de troca para mandar Talib para San Francisco, mas o veterano disse que preferia ser dispensado porque só queria jogar para Bill Belichick em New England ou Wade Phillips em Los Angeles. Então o Broncos mudou a troca e enviou Talib para o Rams por uma escolha de quinta rodada, um retorno naturalmente mais baixo já que a troca teve uma motivação primariamente financeira (abrindo 11 milhões na folha salarial de Denver).

O Rams foi um dos melhores times da NFL em 2017 e terminou o ano 11-5, mas em uma NFC absolutamente brutal e em uma divisão cada vez mais forte que conta com Garoppolo e Russell Wilson de QBs. A margem de erro tanto na divisão como na conferência é mínima, e o Rams não quis se contentar com apenas sentar no sucesso para o ano que vem, especialmente em um momento que o time se preparava para perder seu melhor CB, Trumaine Johnson. A chegada de Aqib Talib e Marcus Peters ajuda  ao adicionar ao time dois grandes jogadores na posição, Peters uma legítima estrela, e Talib ainda uma sólida opção apesar de ter mostrado queda aos 31 anos em 2017. Junto de Lamarcus Joyner, sua estrela na posição de safety que recebeu a franchise tag, o Rams monta uma das mais perigosas secundárias da liga.

Mas essas trocas cobraram seu preço: o Rams estava sem sua escolha de segunda (trocada por Sammy Watkins ano passado), quarta e quinta rodadas, e tinha acabado de adicionar 13 milhões em salários. O time precisava balancear isso, e foi o que fez: sua ex-estrela, o DE Robert Quinn, foi trocado para o Dolphins em troca de uma escolha de quarta rodada e uma swap de escolhas de sexta rodada; e depois o time mandou Alec Ogletree, linebacker, para o Giants em troca de uma escolha de quarta e uma de sexta rodada.

Ambas as trocas fazem sentido, por motivos fora de campo e como contraponto às aquisições de Peters e Talib: Ogletree é um bom jogador, mas é um OLB do weakside pago como um MLB de elite em um contrato bem ruim, e embora Robert Quinn tivesse sido um dos melhores pass rushers da NFL durante o seu auge ele não tem sido o mesmo depois nos últimos três anos depois de uma série de lesões que o forçaram a perder muito tempo e reduziram sua efetividade. Ambos ainda são bons jogadores, produtivos, mas são jogadores que estavam ganhando muito acima da sua produção e eram, assim, nomes dispensáveis quando o time precisou cortar salários e recuperar escolhas ao mesmo tempo. As escolhas adquiridas ajudaram o time a repor o seu capital de Draft para 2018 (exceto a escolha de segunda rodada de Watkins), e liberaram cerca de 15 milhões de espaço na folha salarial. O Rams saiu um time melhor dessas movimentações.

Mas as trocas também evidenciam um problema do Rams, que é sua situação salarial indo para frente. Com as trocas, o time está agora 34 milhões abaixo do teto salarial, e pode abrir mais 7 milhões cortando outro linebacker em Mark Barron, mas esse número faz parecer que a situação é muito menos apertada do que parece. Para começar, o time vai precisar gastar uma boa parte desse dinheiro no curto prazo para repor alguns buracos no elenco, o mais importante sendo na posição de WR com a free agency de Sammy Watkins. Embora Watkins não tenha sido tão bom quanto esperado no seu primeiro ano de Rams, foi quem liderou o time em TDs e ainda é uma opção de alto potencial que Los Angeles supostamente queria manter, e caso saia esperem que o time busque um substituto na free agency (Watkins assinou um contrato com o Chiefs antes da publicação do texto, mas o Rams ainda pode estar no mercado por um novo alvo).

Mas bem mais crítico do que isso é que a situação salarial do Rams está para apertar nos próximos anos. Para começar, Marcus Peters passa de ser uma das maiores barganhas da NFL a 1,7 milhões de salário em 2018 para mais de 9 milhões em 2019, com o Rams possivelmente antecipando a negociação de uma extensão muito cara para evitar que seu CB chegue no mercado, onde sem dúvida será pago como um CB topo de linha. Mais urgente do que isso ainda é a extensão inevitável de Aaron Donald, já que o atual Defensive Player of the Year está no seu último ano de contrato e deve comandar uma extensão MASTODÔNTICA muito em breve que o tornará (provavelmente) o jogador defensivo mais bem pago da história da NFL e vai destruir o espaço salarial da franquia.

O Rams também está encarando em breve outras extensões extremamente caras para Todd Gurley (elegível ano que vem, FA em 2019) e Jared Goff (elegível 2019, FA em 2020). Com Joyner jogando 2018 possivelmente sob a franchise tag e Peters também pronto para acompanhar a timeline de Gurley, o Rams não pode em hipótese alguma se dar ao luxo de ter tantas estrelas virando FA ao mesmo tempo para não matar totalmente sua margem de manobra, o que significa que a franquia terá que ser bem agressiva em dar extensões para essa galera – puxando mais dinheiro gasto no curto prazo – para não ter que perder forçadamente mais desses nomes.

Isso também significa que a dupla Talib/Peters deve ter vida curta. Talib deve ir embora em no máximo dois anos, quando acaba seu contrato, e talvez até mesmo seja um candidato a ser cortado em 2018, considerando que seus 8 milhões de salários são não garantidos e a quantidade enorme de dinheiro que o Rams vai estar pagando pelos jogadores já citados. É possível até que Peters seja uma casualidade salarial a partir de 2019, quando vai comandar dinheiro de topo de linha no mercado e Goff e Gurley – jogadores que eu imagino que Sean McVay ve como mais indispensáveis – estarão nos seus novos contratos.

As trocas por Peters e Talib sempre tiveram um foco no curto prazo, impossível de sustentar por muito tempo, e tudo bem. O Rams sabe que tem uma situação complicada salarial chegando, e precisa aproveitar ao máximo esse curto prazo enquanto Goff ainda ganha salário de calouro para fazer o máximo possível de movimentos win-now, como Seattle fez com Cliff Avril e Michael Bennett enquanto Russell Wilson ganhava menos de um milhão por ano. Talib e Peters ajudam o Rams a vencer no curto prazo, e isso é o mais importante dessas trocas.

Richard Sherman no 49ers

Por fim, eu não poderia deixar passar a chance de falar da nova aquisição do 49ers. Ano passado, o Niners aprendeu – como o Browns aprendeu esse ano – que quando você está tão no fundo do poço e sem atrativos, a única chance de conseguir as peças que você quer é pagando uma “taxa de ruindade” a mais nas negociações salariais, como o Niners fez quando overpaid por Kyle Juszczyk, Malcolm Smith e Pierre Garçon. Um ano depois, o 49ers acabou de contratar um dos maiores nomes no mercado em um dia e está posicionado para ser um dos destinos mais desejáveis da free agency. Nada como um dia após o outro.

Por mais estranho que seja ver o 49ers contratando seu antigo nêmesis da rivalidade com Seattle, o jogador que fez a espetacular jogada que tirou o Niners do Super Bowl 49 e iniciou a espiral negativa da franquia, o encontro faz muito sentido para ambos: o 49ers tinha em CB a sua maior necessidade da free agency e estava no mercado por um veterano (tendo tentado anteriormente trocar por Talib), e Sherman encontra um ambiente familiar na Califórnia (tendo jogado por Stanford no college), em um esquema já conhecido (o coordenador defensivo do 49ers, Robert Saleh, era um assistente de Gus Bradley em Seattle e usa a mesma defesa) e com a chance de enfrentar Seattle duas vezes por ano.

Em campo, Sherman é o encaixe perfeito para esse time do 49ers, um futuro HoF que nos seus grandes dias era um dos três melhores CBs da liga e alguém capaz de fechar sozinho um lado do campo, exatamente o que o Niners precisa sendo que sua secundária não tem grandes nomes e seu pass rush é deficiente. Sherman também é um dos jogadores mais inteligentes e vocais da NFL e era aclamado em Seattle como mentor, o que vai ser importantíssimo para uma defesa muito jovem e em desenvolvimento que precisa de mais fogo. Se tudo der certo, o Niners não poderia ter adereçado melhor sua necessidade na posição, alguém que vai sair bem mais barato do que a outra grande opção no mercado (Trumaine Johnson) e tem bem mais potencial.

Existe, é claro, o risco: Sherman está vindo de uma cirurgia grave no tendão de Aquiles e fará 30 anos no final do mês, e o histórico de CBs dessa idade vindo de lesão não é dos melhores. Mas Sherman não é um jogador cujo jogo depende da sua velocidade e atleticismo como era o caso por exemplo de Darrelle Revis, um CB que despencou rapidamente depois de uma lesão aos 30 anos. Seu jogo se baseia muito mais no seu tamanho, instintos e inteligência em campo, fatores que tendem a envelhecer bem, do que no físico. E, talvez mais importante, o contrato assinado protege muito o 49ers no caso de Sherman não voltar a ser o mesmo jogador que era antes.

Sherman e o 49ers se acertaram em um contrato que parece ser de 3 anos, 39 milhões de dólares, mas na verdade é um contrato de um ano e 5 milhões com várias opções e bônus. Os salários de Sherman para 2019 e 2020 passam a ser garantidos apenas caso ele cumpra alguns requisitos difíceis relacionados a saúde (ficar em campo 90% das jogadas defensivas) ou performance (ir para o Pro Bowl), caso contrário o seu contrato é totalmente não garantido para os próximos anos. Ou seja, em outras palavras, se Sherman não recuperar a boa forma e não jogar bem, o Niners pode cortá-lo sem custo nenhum para o ano que vem e seguir em frente. Ao mesmo tempo, se Sherman jogar bem mas não atingir os patamares de performance, San Francisco ainda controla seu destino e pode optar por manter Sherman. E se o futuro HoF atingir seus benchmarks e seu contrato se tornar garantido daqui para frente, isso significa que Sherman provavelmente estará jogando em alto nível, e um Sherman em alto nível vale bem mais do que vai ganhar no resto do seu contrato e o 49ers ficaria feliz de tê-lo mesmo assim. É um contrato que protege muito o time, enquanto Sherman consegue o que queria desde o começo: um contrato que paga bem e permite apostar em si mesmo, enfrentando Seattle 2x por ano.

Eu vi também muitos torcedores do Niners descontentes com a contratação considerando o histórico de provocações e brigas de Sherman com o Niners no auge da rivalidade entre as franquias em 2012-2014, mas pra mim isso é pura besteira. Durante esse auge, Sherman realmente era um falastrão e provocador que adorava alfinetar e falar mal do 49ers quando tinha a chance, mas assim que o Niners caiu de nível e a rivalidade passou Sherman imediatamente mudou de tom, falando com respeito e até saudade dos anos de glória da rivalidade e elogiando o antigo rival. No fundo, ficou claro que tudo aquilo era apenas um personagem dentro de campo – nunca tinha sido algo realmente pessoal com o 49ers, era apenas um produto do que estava acontecendo ali. A verdade é que, no final, é tudo uma questão de negócios: assim como times e jogadores farão trocas, dispensarão jogadores e assinarão contratos com base no que é melhor para eles individualmente, jogadores também vão assumir facetas públicas com base no que é melhor para os negócios, seja um personagem que aumente sua atenção e seu valor fora das quadras, seja uma forma de intimidar e entrar na cabeça dos adversários (Odell Beckham Jr, alguém?). e ganhar uma vantagem dentro de campo.

É como negócios que precisamos também avaliar essa contratação, e nesse sentido foi um enorme sucesso, com 49ers adquirindo a um contrato protegido um futuro Hall of Famer que preenche sua maior necessidade, encaixa no esquema perfeitamente e que se for 70% do jogador que foi em Seattle já vai ser uma ENORME adição ao time – além, claro, de validar de uma vez por todas a mudança do 49ers de “time que ninguém quer jogar” para “destino cobiçado na free agency”, o que como o Browns nos mostrou tem um peso e um valor muito grandes para times tentando mudar de direção. Com a assinatura de Sherman, o 49ers prova que conseguiu chegar lá.

As estatísticas e dados dessa coluna vieram dos seguintes sites: Football Outsiders, Pro Football Focus, Pro-Football Reference, ESPN Stats and Info, Spotrac, Over The Cap, e Tankhatlon.

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