O Milwaukee Bucks e o dilema Kidd

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Kidd explicando que está indo comprar cigarros e já volta (Foto: USA Today)

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No último dia 22 de janeiro, o Milwaukee Bucks – um dos times mais interessantes da NBA e que tem talvez a mais brilhante jovem estrela do esporte – tomou as manchetes esportivas por um motivo bem menos agradável: com Woj anunciando que o time tinha demitido seu técnico, Jason Kidd.

Embora o momento da demissão e a forma como se deu (sem avisos prévios) tenham surpreendido algumas pessoas, não da para dizer que a demissão em si tenha sido um choque ou algo inesperado. Já vinha algum tempo que o trabalho de Kidd vinha sendo questionado dentro e fora de Milwaukee, por torcedores e mídia – na verdade, a versão inicial dessa coluna era exatamente apontando problemas com o Milwaukee Bucks e questionando se Kidd não precisaria sair para algo mudar. Mas antes de chegarmos lá, vamos voltar rapidamente pela trajetória do Kidd no comando do Bucks.

Kidd assumiu o comando do Bucks antes da temporada 2014/15, quando o antigo técnico Larry Drew foi demitido após levar o Bucks a uma péssima campanha de 15-67, a pior da NBA. Kidd tinha perdido uma briga interna por poder com o então-GM Billy King no Nets, e o Nets e o Bucks acabaram entrando em um acordo no qual o ex-armador iria para Milwaukee em troca de algumas escolhas de Draft.

Kidd chegou em Milwaukee com mais poder do que tinha no Nets – incluindo sua relação com o poderoso agente Jeff Schwartz – e com um desafio e tanto: mudar o destino da franquia de um dos menores mercados da NBA através de um projeto de reconstrução cheio de jovens jogadores. Giannis Antetokounmpo, o promissor mas cru talento grego, tinha 19 anos quando a temporada começou; Jabari Parker, escolha #2 do Draft, também; Brandon Knight tinha 22; Khris Middleton e John Henson tinham 23. Essa era basicamente a espinha dorsal do time que queriam que Kidd montasse para o futuro.

E o Bucks, já no seu primeiro ano sob o comando do ex-armador, começou a mostrar os resultados: mesmo com o elenco jovem e inexperiente o time venceu 41 jogos na temporada (#6 no Leste), atrás de uma defesa extremamente agressiva e veloz que pegou a NBA de surpresa e foi a segunda melhor de toda a liga (atrás apenas dos eventuais campeões Warriors), e de um ataque bastante balanceado (contando Brandon Knight e Michael Carter-Williams, trocados durante a temporada um pelo outro, sete Bucks tiveram média acima de 10 pontos por jogo, e nenhum mais do que 18). Milwaukee foi eliminado por um bom time do Bulls em 6 jogos na pós-temporada, mas não sem antes dar uma boa briga (literalmente – foi uma série com ânimos acirrados) e ganhar aquele rótulo de “time do futuro” da NBA, cheio de jovens talentos de grande potencial, cujo trabalho estava apenas começando. Milwaukee estava de volta no radar da NBA, Kidd ficou em terceiro na votação de técnico do ano, e todos mal podiam esperar para ver onde esse jovem time iria nos próximos anos.

2016 um ano de decepções. A defesa frenética e agressiva de 2015, que pegou muitos times de surpresa, agora era um pouco mais conhecida, e times estavam prontos para enfrentá-la – o que expôs a imaturidade e falta de experiência do elenco do Bucks. Apostas como Greg Monroe e Michael Carter-Williams não deram certo, e Jabari Parker ainda estava bastante limitado voltando de uma lesão no ACL. Mas essa irregularidade é normal em times jovens, e a segunda metade da temporada trouxe um novo motivo de animação: com a temporada praticamente perdida, Kidd decidiu usar a reta final da temporada para testar coisas novas que pudessem servir de base para a temporada seguinte.

E uma delas, a mais importante, foi pegar aquele jogador que demonstrava tanto potencial, Giannis Antetokounmpo, e colocá-lo para jogar como armador principal da equipe apesar de seus 2m08. Com excelente visão de jogo, ótimo QI de basquete, braços gigantes e capacidade de dar passes por cima (e ao redor) de qualquer jogador da NBA, Giannis estava se adaptando com uma velocidade alucinante na NBA, e Kidd decidiu dar à sua jovem estrela a chance de desenvolver outra parte do seu jogo. E foi um ENORME sucesso: nos 26 jogos finais da temporada, depois da mudança, Giannis teve médias de 19 pontos, 8 rebotes e 8 assistências por jogo jogando como um Magic Johnson 2.0 (impossível não fazer o paralelo dado seu tamanho, braços gigantes, ritmo veloz de jogo e carisma), e o Bucks se tornou novamente o jovem time mais empolgante da liga.

Mesmo quando em 2017, quando o Bucks – em meio a múltiplas lesões em jogadores chave como Middleton e Jabari Parker – voltou aos playoffs com uma campanha de 42-40, todas as atenções continuavam voltadas para o jovem Giannis, que parecia ter dado OUTRO salto imenso no seu quarto ano de NBA, assumindo papel maior como pontuador, se reinventado como um defensor de altíssimo nível capaz de proteger o aro E defender cinco posições, armar o jogo do outro lado da quadra, e basicamente funcionar como um missmatch ambulante gigante. Ainda com 22 anos, Giannis era uma realidade, e foi nas suas costas que o Bucks mais uma vez deu a volta por cima e voltou a ter uma temporada vitoriosa, a primeira desde 2010. O promissor “amanhã” do Bucks ainda não tinha chegado, mas parecia cada vez mais perto.


2017/18 deveria ser a temporada que o Bucks enfim realizaria suas promessas. Giannis tinha dado o salto para se tornar uma estrela, e aos 22 anos e dado seu desenvolvimento alucinante, era muito razoável supor que outro salto ainda estava a caminho – que de fato veio. Middleton tinha se desenvolvido em um jogador nível All-Star (apesar de nunca ter sido escolhido) e estaria saudável dessa vez. Malcolm Brogdon, calouro do ano, e agradáveis surpresas da temporada 2017 (Monroe e Tony Snell, principalmente) tinham se mostrado bons complementos, o retorno de Jabari Parker estava no horizonte, e o time tinha ativos e perspectivas de fazer alguma troca caso sentisse a necessidade. As expectativas estavam no céu.

Quatro meses depois, Kidd foi demitido com Milwaukee amargando a oitava colocação do leste a 23-22, e ameaçando cair fora das posições de playoffs. Nenhum time, com um jogador do nível de Giannis Antetokounmpo, poderia se contentar com uma performance tão mediana. E então perguntas começaram a ser feitas, sobre o que estava causando esse ano tão decepcionante.

O ataque do Bucks tem sido, na verdade, bem sólido esse ano – é o oitavo melhor da NBA, em grande parte porque Giannis Antetokounmpo virou uma mistura de Magic Johnson, LeBron James, Doctor J, Dhalsin e Godzilla. É o ano 5 para Giannis na NBA, e eu não lembro de ter visto algo parecido com seu crescimento em tantos anos assistindo basquete. Dê uma rápida olhada nas suas médias ano-a-ano no Basketball-Reference para entender o que eu digo:

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A lista completa de jogadores pós-Merger (fusão entre NBA e ABA em 1976) com 28 pontos por jogo de média, 50% de aproveitamento de quadra (Giannis tem 55%), com 23 anos ou menos é a seguinte: Jordan; Shaq; Giannis. Essa é a lista. Mudando os parâmetros para 28 pontos, 10 rebotes, 5 assistências, 1 toco e 1 roubo por jogo, e apenas David Robinson e Larry Bird (ambos com 28 anos) conseguiram na história da NBA desde que roubos/tocos viraram estatísticas oficiais em 1973. Giannis tem 23 anos. Não tem como dizer até onde ele vai chegar.

E o que ele já é hoje é espetacular. Não tem jeitos possíveis de se defender Giannis em uma quadra de basquete. Sua agilidade, força e explosão, combinados com um repertório cada vez maior e seu surreal alcance físico, fazem dele um pesadelo de se marcar. Coloque um jogador mais baixo, e Giannis vai pontuar literalmente por cima dele, usando a altura, jogando de costas para a cesta, ou simplesmente colocando o peito dele em você para abrir caminho no muque. Coloque um jogador mais pesado, e o grego vai botar a bola no chão e partir para o drible. E se você conseguir achar um defensor com a capacidade física de marcar Giannis em termos de tamanho e agilidade, não faz a menor diferença, porque ele vai usar seus braços imensos para passar a bola pelo lado ou por cima da marcação e alcançar a cesta de qualquer jeito. Nenhum jogador na NBA é capaz de alcançar a cesta com mais facilidade, de mais ângulos e direções diferentes, e Antetokounmpo ainda dominou todos o ângulos ao redor da tabela para fazer bandejas que nenhum outro jogador consegue.

(Vídeo de Zach Lowe, da ESPN)

Giannis ainda não tem o arremesso que todos gostariam de ver, mas simplesmente não faz diferença porque Giannis consegue chegar até o aro quando quer, como quer, e contra quem quer. A experiência de Giannis jogando como PG em tempo integral pelo Bucks acabou não se carregando exatamente – o time inclusive trouxe (acertadamente) Eric Bledsoe para dividir a criação com Giannis – mas ajudou o camisa 34 a evoluir muito sua leitura de jogo e seus passes, e até agora tem se mostrado muito capaz de achar os jogadores certos e tomar as decisões corretas quando a defesa colapsa em cima dele, ou dobra (e até triplica) a marcação no seu caminho. Giannis já se tornou um dos 8, 10 melhores jogadores da NBA, e quando o grego está em quadra pelo Bucks, o time anota 109,3 pontos por 100 posses de bola, equivalente ao quinto melhor ataque da temporada, apesar de ser o terceiro que menos converte bolas de 3 pontos.

E aqui chgamos ao primeiro problema: se o ataque do Bucks é o quinto melhor da NBA quando Giannis está em quadra, ele é o segundo PIOR da NBA quando ele vai para o banco. Sem Giannis, o Bucks nota 101 pontos por 100 posses de bola, pior do que o Lakers (101,7) e superior apenas ao Sacramento Kings (99,9).

A verdade é que quando Giannis vai para o banco, todos os problemas ofensivos do Bucks aparecem de uma vez. O ataque é extremamente estagnado, e faz muito pouco para gerar espaços e quebras na defesa adversária de forma a iniciar uma ação fluida. É muito comum, no ataque do Bucks, ver um jogador indo para a zona morta oposta de onde a jogada se inicia, e passar a posse inteira lá, sem nenhuma movimentação, sem fazer um corta luz ou ser uma ameaça maior para a defesa. Não é um ataque inteligente, que saiba se movimentar sem a bola e criar confusões na defesa a partir da movimentação e passes rápidos ou inteligentes – ele depende demais da ação na própria bola gerar alguma quebra para então atacar. Não é assim que os melhores ataques agem, e essa estagnação faz do Bucks inassistível em diversos momentos.

Quando Giannis está em quadra, isso se resolve na base do talento de outro planeta do grego – a jogada mais comum do Bucks é ver Giannis trazendo a bola, passar de lado para alguma ação menor nas alas, e cortar para estabelecer uma boa posição na cabeça do garrafão. A bola então volta pra Giannis, que basicamente tem posição pra fazer o que quiser: atacar a cesta (e ele alcança o aro mais rápido que ninguém), tentar um floater, ou então movimentar a bola quando a defesa tenta atacá-lo. Essa é a “quebra” inicial que todo time precisa criar para começar uma jogada de sucesso, só que o Bucks depende demais do talento individual, e de Antetokounmpo criando esse espaço quase sozinho, para funcionar. Eles são muito deficientes em fazer as outras ações para confundir defesas e forçar quebras: apenas dois times fazem menos corta-luz na NBA inteira; apenas seis times fazem menos passes por jogo; os jogadores do Bucks percorreram apenas 8,7 milhas totais na temporada no ataque, a terceira pior marca da NBA; e o time continua jogando num ritmo glacial (23rd na NBA) apesar de ter talvez o jogador de quadra aberta mais perigoso da NBA. A falta de repertório e essa mentalidade ofensiva “atrasada” é o que impede que o Bucks seja capaz de se sustentar sem sua estrela.

E agora eu espero que você esteja se perguntando: “Mas espera um pouco, se toda essa falta de ação fora da bola estrangula o ataque do Bucks sem Giannis, esses problemas também não estão presentes quando o grego está em quadra?“. E a resposta é sim, claro! Só porque Giannis tem talento para mascarar as deficiências não quer dizer que elas não existam, ou que não estão impedindo algo melhor. A forma como o Bucks NÃO usa suas peças ofensivas é muito irritante, especialmente com uma das armas mais versáteis da liga, um armador de 2m08 que pode fazer as duas funções no pick and roll, causa terror cortando pra cesta e é basicamente uma dama do xadrez esperando pra ser usada. Mas são poucas as jogadas que começam com um corta luz fora da bola para o grego ganhar velocidade na hora de receber o passe, ou que tenha duas ações secundárias (uma de cada lado) para forçar linhas de passe a se abrirem. Se com Antetokounmpo o ataque estagnado do Bucks é Top5 na NBA, o quão bom ele seria com um esquema mais criativo, que maximizasse melhor o talento em mãos? Ele poderia, sem dúvida, ser ainda melhor do que já é.

Mas ainda mais problemático do que esse ataque do Bucks, que pelo menos gera bons resultados com sua estrela em quadra, é o que acontece do outro lado da bola. No papel, o Bucks tem tudo para ter uma das melhores defesas da liga, como aconteceu em 2015: Giannis se tornou um dos 10 melhores defensores da NBA, capaz de executar qualquer função defensiva, trocar a marcação e proteger o aro, o sonho de qualquer técnico. Middleton e Malcolm Brogdon são muito bons defensores, assim como Bledsoe quando engajado, todos capazes de trocar a marcação e defnder múltiplas posições. Peças complementares, como Tony Snell e John Henson, também são defensores capazes. Milwaukee tem tudo que você poderia pedir: uma estrela defensiva, versatilidade, agilidade, atleticismo e muito, MUITO alcance em meio a vários braços gigantes.

É inadmissível, portanto, que com tudo isso o Bucks seja a sétima pior defesa de toda a NBA – na frente apenas dos absolutos piores times da NBA (Kings, Suns, Magic, Hawks) e do bizarro Cavaliers. Lembra quando eu falei que o Bucks era o terceiro time que MENOS distância percorria no ataque? Na defesa eles são o terceiro time que MAIS distância percorre – só que isso não é uma coisa boa para o Bucks.

Em 2015, quando Mikwaukee teve a segunda melhor defesa da NBA, o segredo por trás desse sucesso foi uma defesa extremamente agressiva, que pressionava quem estava com a bola atrás da linha dos três pontos e fazia o chamado “trap“, ou atacar (numa tradução livre: “prender“) o jogador que está conduzindo a bola no pick and roll:

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Monroe (#14) faz a screen para iniciar o pick and roll com Booker (#1). 
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Quando Booker está passando pela screen, Maker (#7), marcando Monroe, salta na frente da pick para atacar Booker do outro lado, enquanto seu marcador original (Liggins, #25) continua pressionando a bola.
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Percebendo a dobra na marcação, Booker precisa dar um pulo e um giro no ar, fazendo um passe difícil e torto para Josh Jackson (#20), dando tempo para Tony Snell (no topo do garrafão, impedindo o avanço de Monroe) se recuperar e voltar até Jackson antes que a bola chegue.

A ideia por trás desse tipo de defesa é simples: forçar o adversário a passar a bola em uma situação complicada de pressão, por cima de braços e corpos enormes indo na sua direção, o que causa passes ruins e turnover – e mesmo quando a bola não é roubada ela atrasa o ataque o suficiente para que a defesa possa se reestabelecer, impedindo assim as “quebras” pelas quais o ataque se inicia. O Miami Heat bicampeão com LeBron James usava muito essa defesa: o time tinha alguns dos jogadores mais atléticos e longos da NBA (em especial o subestimado Chris Bosh) que pressionavam quem estava com a bola, forçavam o passe cedo, e confiavam na velocidade, capacidade atlética e inteligência do seu time para fazer as rotações corretas para que quando a bola chegasse no seu destino a defesa já estivesse perfeitamente montada.

No Bucks, isso não funciona tão bem. Defender na NBA é, de certa forma, fazer escolhas: é impossível impedir tudo que um ataque nesse nível vai poder fazer, então o que as defesas fazem é forçar o adversário a dar o arremesso que ELAS querem. Se você é uma defesa com vários jogadores de tamanho semelhante (como Golden State), você troca a marcação, evita missmatches, evita dar ao ataque espaços com corta luz, e força o ataque a jogar em isolações ou arremessos contestados. Se você tem um grande protetor de aro (como o Jazz), você pode ser mais agressivo no perímetro para forçar a infiltração e confiar que o seu pivô vai manter os arremessos no aro sob controle. O Blazers montou uma boa defesa esse ano atacando loucamente os adversários na linha dos 3 pontos, forçando-os a bater para dentro e vencer com arremessos de dois pontos, mudando assim a matemática do jogo mais a seu favor. Basicamente, a maioria das defesas aceita que não vai conseguir parar todos os tipos de arremesso, e monta sua estratégia em torno de quais arremessos ela vai direcionar o adversário – em geral forçando arremessos de meia distância e evitando os suculentos arremessos livres, no aro ou na linha de três pontos.

A ideia da defesa do Bucks é exatamente tentar ir além, atacar e evitar todos os tipos de arremessos. Com talvez o time com a maior envergadura de toda a NBA, Milwaukee quer ser agressivo e aproveitar esses braços gigantes para tornar os passes difíceis em passes ainda mais difíceis, forçando passes altos, lentos e pendurados que sejam ainda mais fáceis pra a defesa interceptar e sair para pontos fáceis em transição, ou pelo menos que permitam à defesa reestabelecer suas posições. O departamento analítico do Bucks controla e registra o tempo que os passes adversários permanecem no ar, segundo dizem fontes com conhecimento do assunto – quanto mais tempo no ar, maior o sucesso da defesa. É a base em cima da qual o Bucks quer construir seu sistema defensivo, e quando funciona, realmente é algo lindo de se contemplar: sufocando os jogadores adversários quando tem bola, gastando o relógio com ações infrutíferas, evitando praticamente qualquer tipo de arremesso favorável e ainda gerando muitos pontos fáceis em transição a partir de turnovers. No papel, faz sentido.

O problema é que, na prática, o Bucks não consegue executar o esquema bem o suficiente para ele funcionar. Essa defesa exige coordenação e timing perfeitos para funcionar, e o time não tem o tipo de entrosamento e raciocínio coletivo que leva a fazer as rotações certas e fechar os espaços. Deu certo em 2015, quando era uma surpresa que pegou a NBA desprevinida, mas os times logo se adaptaram e aprenderam a contornar esse tipo de jogada, e o Bucks nunca conseguiu subir um nível para evitar problemas.

A questão é que, se a blitz não for bem feita – o ângulo estiver torto, a sincronia entre os jogadores não funcionar, a dobra vier na hora errada – e o defensor conseguir fazer o passe para se livrar da bola antes da defesa chegar nele, e especialmente se a defesa atrás não conseguir fazer as rotações certas pra pelo menos travar quem recebe a bola, de repente o ataque se ve em uma situação de 4 contra 3, extremamente favorável, com o jogador que fez o corta-luz recebendo a bola de frente e a caminho da cesta, e a defesa agora precisa tomar decisões muito mais rápidas em enorme desvantagem para evitar que o ataque consiga algum arremesso bem favorável – o que em geral ela não consegue, como no exemplo abaixo:

 

 

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Terry Rozier (#12, com a bola) chama a screen de Semi Ojeleye (#37) na lateral da quadra. Dellavedova (#8), marcando Rozier, e Teletovic (no topo da quadra), já saem para “prender” o armador de Boston na lateral antes dele chegar no corta-luz.
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Mas Delly e Teletovic saíram cedo demais, e Rozier recua sem nunca chega a usar o corta luz – era apenas um disfarce para tirar Teletovic, agora perdido sem marcar ninguém, de posição.

 

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Com Teletovic perdido no meio do nada, sem marcar ninguém, Malcolm Brogdon (#13, no garrafão) – originalmente marcando Larkin, na zona morta – precisa correr para o garrafão e impedir que Ojeleye caminhe para uma bandeja fácil. Rozier passa a bola para Horford (#42), que agora está jogando três-contra-dois do lado esquerdo da quadra.

 

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Com a vantagem numérica, Jaylen Brown (#7) ameaça cortar para a cesta, no que é acompanhado por Giannis (#34), seu marcador… mas a intenção de Brown na verdade é fazer o corta luz em Brogdon, que está voltando desesperadamente para sua marcação original, Shane Larkin (#8), que recebe o passe de Horford para uma bola de 3 pontos completamente livre.

Esse é um contra-ataque comum ao trap, e força a defesa a tomar decisões rápida em pouco tempo com desvantagem numérica. O certo aqui seria Giannis perceber o corta luz, ignorar Brown (deixando-o para Brogdon, já no garrafão) e trocar a marcação para marcar Larkin na linha de três, mas é o tipo de decisão extremamente rápida que você precisa acertar um número bem alto de vezes para essa defesa funcionar, e em perfeita sincronia. Se a troca vier um segundo atrasada ou Brogdon não estiver perfeitamente coordenado com o que Giannis vai fazer, Brown consegue cortar para uma bandeja facílima no garrafão. Se Teletovic continuar correndo para o garrafão para tentar cobrir Brown, Ojeleye tem a bola de 3 livre na zona morta. A defesa se colocou um passo atrás do ataque com a dobra (o trap) inicial que deu errado, e um bom ataque vai explorar essa vantagem.

E essa tem sido a história da defesa do Bucks essa temporada, e na verdade em todas desde 2015: o time continua jogando com esse estilo ultra-agressivo, ultra-ativo tentando sempre fazer o trap em cima dos jogadores com a bola no pick and roll, e quando funciona, é lindo de se ver, com Milwaukee voando em transição com Giannis e suas enterradas lendárias. Mas na maioria do tempo os adversários simplesmente conseguem passar esse primeiro passe, e dai a defesa entra em colapso, com os adversários facilmente manipulando os defensores que sobraram para conseguir os arremessos mais suculentos da NBA, perto do aro ou as bolas de três livres. O Bucks não tem o tipo de coordenação, sincronia, e experiência para fazer isso funcionar, e não deu nenhuma mostra de desenvolver nos últimos 3 anos.

O resultado foi que nenhum time da NBA inteira cedeu mais arremessos perto do aro, e apenas o Miami Heat cedeu mais arremessos livres de 3 pontos para os adversários – exatamente as coisas que as boas defesas buscam tirar dos adversários. Tentando tirar todos os tipos de arremesso de uma vez só, o Bucks está na verdade dando de presente para os adversários os arremessos que ele mais quer, e essa é a causa por trás da péssima defesa de Milwaukee sob o comando de Kidd, especialmente esse ano. Todo mundo continuava cobrando e imaginando uma mudança para um esquema mais conservador de defesa, menos megalômano, que jogasse mais nas forças do seu elenco. Nunca aconteceu, nem como teste. Não é de surpreender que a paciência com Kidd tenha se esgotado.

Então sim, é verdade que muitos dos problemas que estavam impedindo e segurando esse time do Bucks de ir para frente nos últimos anos tem um forte componente tático, que aponta diretamente para Jason Kidd. O time cresceu individualmente, mas o coletivo continuava restrito, e Kidd nunca mostrou a capacidade – ou, pior, a disposição – de realizar as mudanças necessárias para que o time desse os próximos passos. Era um time preso a algumas teimosias que impediam que realizasse seu enorme potencial em torno do melhor jovem jogador da NBA. Portanto, não é surpresa que o Bucks demitisse Kidd, acreditando que era a única forma de retomar a trajetória de crescimento dessa franquia conforme o relógio de Giannis começa a tocar. Eu sempre fui dessa crença, e esse ano não foram poucas as vezes que pedi essa mudança para Milwaukee (Kidd ser uma dor de cabeça com suas constantes brigas por poder nos bastidores também não ajudou sua causa, aliás).

Mas isso também não quer dizer que o trabalho de Kidd não tenha bons efeitos, ou grandes acertos. O Bucks que Kidd pegou em 2014 era um time basicamente sem nada, um conjunto de jogadores sem bons hábitos, sem uma identidade, sem uma mentalidade consolidada tanto individual como coletivamente. Kidd trouxe tudo isso ao Bucks, instituiu muitos bons hábitos de treino (a grande maioria adquiridos sob Rick Carlisle em Dallas) e dentro de quadra, fez os jogadores se importarem e se dedicarem, e – bem ou mal – deu ao time uma identidade tanto dentro como fora de quadra. Kidd constantemente desafiava os jogadores, e muitas vezes isso gerava bons resultados. O time não tinha mais uma zona de conforto. Os jogadores respeitavam Kidd e jogavam duro, e ele ajudou a criar uma fundação dentro da franquia que permitiu aos jogadores crescerem.

Kidd também tem muitos méritos no desenvolvimento de jogadores do Bucks, em especial no de transformar Giannis na superestrela que é hoje. Tanto no seu jogo dentro de quadra (em especial a decisão de permitir que Giannis jogasse o resto da temporada 2016 como armador, o que ajudou muito a desenvolver seu drible e visão de jogo) como na sua personalidade (Kidd frequentemente colocava Antetokounmpo no banco quando achava necessário, confrontava sua estrela e comandava enorme respeito do grego) para dar um pouco mais de instinto assassino em quadra para aquele cara tão tranquilo e inocente, muito dessa evolução passa pelo trabalho de Kidd, e o Bucks não seria o time que é hoje não fosse esse ótimo trabalho de desenvolvimento, e muito disso também passa pelos méritos do técnico.

Ainda assim, isso não quer dizer que Kidd fosse o homem certo para continuar o trabalho. Sua trajetória no Bucks me lembra muito a de Mark Jackson quando assumiu o Warriors, então um time jovem cheio de talentos apontando em várias direções diferentes, sem uma cultura estabelecida, precisando criar uma fundação. Jackson ajudou a fazer aqueles jovens talentos se importarem com defender, criou as bases de uma ótima defesa, estabeleceu uma cultura e mentalidade vencedora no vestiário, e basicamente criou uma ordem daquele caos, boa o suficiente para ir aos playoffs e mudar a cara de uma franquia cuja identidade ao longo de tanto tempo fora de derrotas. Mas chegou um ponto onde esse crescimento sobre Jackson ficou estagnado (especialmente pela sua incapacidade de usar Curry e Thompson ofensivamente), a diretoria percebeu que o time tinha um potencial para ir mais longe que não estava mostrando, e decidiu que precisava de um técnico novo, com outra mentalidade, para dar esse passo a mais. O time então chutou Jackson e trouxe Kerr, que pegou aquela base montada e simplesmente adicionou aquilo que estava faltando, e que Jackson não estava sendo capaz ou interessado em fazer. O resto é história.

O mesmo pode acontecer aqui com o Bucks: Kidd criou a base, mas não se mostrou a pessoa certa para dar os próximos passos e atingir novas alturas – e agora o Buck deve ir à procura de quem possa.

Ainda assim, essa é uma decisão com riscos. Não só pelo timing da demissão ser no meio da temporada, mas por causa da relação de Kidd com Giannis Antetokounmpo, sua maior estrela.

Embora Giannis ainda tenha 3 anos no seu contrato para cumprir, o Bucks sabe que uma franquia de mercado minúsculo não pode correr riscos quando tem a enorme sorte de pegar e desenvolver um talento geracional como Giannis com a escolha #15 do Draft. O time precisa fazer todo o possível para convencer o grego a ficar no time além de 2021, quando seu contrato acaba, e que isso começa agora – um dos motivos pelos quais Milwaukee está tão desesperado para começar a ir aos playoffs com regularidade e começar a dar os próximos passos na sua evolução antes que seja tarde demais. Você precisa fazer o possível e o impossível para manter sua estrela feliz.

Kidd e Giannis tinham um relacionamento bem próximo, mais do que o comum para técnico e estrela. Kidd sempre foi um grande mentor pra o grego, como dito acima, ajudou demais no seu crescimento dentro e fora de quadra, e era visto como um confidente do camisa 34 (minha história favorita de Giannis e Kidd: quando Kidd colocou Antetokounmpo no banco pela primeira vez em 2015, Giannis ficou extremamente pistola, e decidiu que queria “ver o que esse cara tinha feito de tão especial na carreira” pra fazer isso com ele. Dai pegou o celular, entrou na Wikipédia do Kidd, e viu que ele era campeão da NBA, medalhista de ouro olímpico, Calouro do Ano, All Star, #2 em assistências, #5 , etc, e acabou ficando em choque. “Jesus amado, não da pra competir com isso, é melhor eu ficar de boca fechada e jogar basquete”, nas próprias palavras de Giannis). Antetokounmpo ficou supostamente devastado com a notícia da demissão e ligou para Kidd 15 minutos antes do treinador sequer ter sido notificado para se oferecer a ligar para quem precisasse a fim manter o cargo do seu técnico, segundo múltiplas fontes próximas da situação (Ramona Shelburne se não me engano foi a primeira).

Embora fontes já tenham vindo a tona dizer que a demissão de Kidd não gerou um mal estar entre Giannis e o time, é o tipo de coisa que pode pesar na hora de uma decisão da sua estrela, e o tipo de “mimo” que muitas vezes as franquias acabam concedendo para seus jogadores a fim de manter o jogador feliz. A diretoria do Bucks está fazendo a aposta de que a melhora de performance e perspectiva da franquia sem Kidd e com um novo técnico vai ser muito mais importante para reter Giannis no futuro do que um time pior e um técnico com boas relações com sua estrela, e provavelmente está certo, mas é algo a se monitorar indo para frente.

Para onde o time vai daqui para frente ainda é uma incógnita. Joe Prunty, assistente técnico de Kidd, vai assumir o time até o final do ano, mas é bem incerto se será uma opção para o Bucks indo para frente. O time começou pegando fogo desde a saída de Kidd, com 7 vitórias e 1 derrota, mas é extremamente questionável se isso tem algo a ver com a troca de técnico: essas 7 vitórias vieram contra Phoenix, Nets (x2), Bulls, Hornets, Knicks (x2, uma sem Porzingis) e Philly (sem Embiid), e foram muito mais efeito de um calendário extremamente fácil do que qualquer outra coisa. Talvez o Bucks tente procurar alguém como Dave Fizdale, disponível no mercado, ou então vá atrás de alguém sem experiência de HC mas com ideias modernas como o Warrios fez com Kerr, mas essa opção vai nos dizer muito sobre o futuro da franquia, informação que não temos hoje.

Mas uma coisa importante mudou com Prunty no lugar de Kidd, e que pode nos dar uma pequena mostra do que o futuro nos espera: a defesa. Prunty chutou para longe a frenética defesa agressiva de Kidd (Aleluia, irmãos!) e instalou um sistema mais conservador, onde o pivô marcando o pick and roll não ataca mais quem está com a bola, e ao invés disso recua para conter a infiltração. Veja onde Maker recua para conter TJ McConnell ao invés da pressão de costume (o que leva a um arremesso de meia distância contestado):

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Essa falta de pressão evita o tipo de movimentação frenética atrás que os ataques exploravam para cestas fáceis, permitindo que os defensores não envolvidos na jogada permaneçam perto de quem estão marcando, o que por sua vez evita quebras e erros de comunicação. O Bucks tem o tamanho e a qualidade coletiva pra defender bem nesse sistema, e embora ainda não de pra medir os resultados dessa mudança em apenas 8 jogos, é uma mudança promissora e na direção certa para Milwaukee.

Milwaukee ainda tem muito mais perguntas do que respostas, hoje e indo para frente. Jabari Parker está de volta de mais uma lesão séria no joelho, e o Bucks precisa saber o que esperar dele antes de oferecer um contrato essa offseason, e como ele encaixa com o resto desse time. O time precisa decidir que técnico pegar, e que estilo de jogo quer jogar. Precisa pensar se Giannis-Middleton-Bledsoe-Jabari-Brogdon é realmente um núcleo de um time que pode brigar pelo título, e portanto e se vale a pena pagar caro para mantê-lo junto – ou se é hora de usar alguns deles como moedas de troca para fazer ajustes. Muito do futuro dessa franquia será decidido nos próximos meses. Esse foi só o primeiro passo.

Mas pra 2018, o Bucks volta a ser um dos times mais interessantes da NBA, em parte porque agora o time está teoricamente completo com Jabari (que, pra ser justo, dificilmente estará 100% ainda esse ano), e em parte porque a saída de Kidd da ao time a chance de ser algo diferente do que nós já vimos antes. Ninguém duvida do talento do Bucks, e Giannis se estabeleceu como um dos 8 melhores jogadores da NBA. Se o time conseguir pelo menos mostrar alguma evolução, especialmente do lado defensivo, esse vai ser o adversário que ninguém vai querer enfrentar na pós-temporada.

Estaremos de olho.

As estatísticas e dados dessa coluna vieram dos seguintes sites: Basketball Reference, NBA Stas, Cleaning the Glass, Synergy Sports, Spotrac, ESPN Stats and Info.

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