Voa, Eagles, voa!

Foles
O MVP improvável (Foto: Kiel Leggere, Philadelphia Eagles)

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O Eagles conseguiu.

Cinquenta e oito anos após seu último título de NFL, em 1960, sete anos ANTES do primeiro Super Bowl ser jogado. Tempo no qual viu o maior rival, o New York Giants, levantar SETE títulos (sendo 4 Super Bowls). Tempo no qual amargou duas derrotas em finais, a última delas 13 anos atrás para o mesmíssimo Patriots de Tom Brady e Bill Belichick.

Mas aconteceu. O Philadelphia Eagles – uma das franquias mais antigas e tradicionais da NFL, de lendas como Chuck Bednarik e Reggie White – enfim conquistou seu primeiro título de Super Bowl, um título que a cidade de Philadelphia (uma das mais fanáticas por esportes dos EUA) desesperadamente precisava, com apenas um outro título (Phillies, ’08) nos últimos 35 anos. E aconteceu como a maior zebra do Super Bowl (de acordo com as casas de apostas) dos últimos 9 anos, depois do time já ter feito “história” sendo o primeira #1 seed a ser considerado azarão jogando em casa duas vezes seguidas nos playoffs. Foi um título com a cara desse time, e com a cara da cidade.

E , como não poderia deixar de ser, ele foi tudo menos fácil. Foi sofrido, foi difícil, e foi decidido apenas nos minutos finais. E, acima de tudo, esse título veio da forma como talvez menos se esperasse: às custas de um ataque explosivo, que carregou nas costas uma defesa ineficiente durante todo o jogo, e ajudado por um New England Patriots que constantemente atirou no próprio pé e cometeu os tipos de erros não característicos que o time tanto se especializou em evitar.

No preview sobre a partida que eu escrevi semana passada eu destaquei aqueles que eu acreditava que seriam os pontos chaves para o Eagles surpreender e conseguir a vitória contra New England. E muito embora a coluna tenha acertado em muitas coisas e vá envelhecer bem (raro para um preview), muitas das coisas que foram destacadas nela como chave realmente se mostraram assim… da forma oposta ao que eu esperava.

O primeiro, e mais importante fator para a vitória do Eagles, foi Nick Foles. No preview eu escrevi sobre como Foles entrou tão mal durante a temporada regular (após a lesão do titular e então favorito ao MVP, Carson Wentz) que chegou a ir para o banco em favor de Nate Sudfeld na Semana 17, antes de recuperar a boa forma e ter grandes atuações contra Falcons e principalmente Vikings nos playoffs – em parte por causa do grande trabalho da comissão técnica em “esconder” Foles das situações onde precisava se expor demais e jogar para suas forças e limitações. Eu sugeri que o segredo para o Eagles seria repetir a fórmula no Super Bowl contra o Pats, e que a melhor forma de fazer seu QB reserva jogar bem era basicamente pedir que ele fizesse o mínimo possível: simplificando as leituras, usando passes na linha de scrimmage, tirando a bola da sua mão rapidamente. Quanto mais Foles ficasse com a bola nas mãos, tendo que lidar com a pressão, fazendo leituras mais avançadas e fizesse passes longos que dependessem da força e precisão do seu braço, maior a chance das coisas darem errado para o Eagles.

Acabou sendo quase o oposto. O Eagles de fato tentou fazer todas essas coisas em diversos momentos do jogo, em especial nas conversões de terceiras descidas (o Eagles converteu 10 de 16 terceiras descidas e 2 de 2 quartas descidas, outra das chaves para Philadelphia destacadas na coluna), e o fato de que o Eagles mostrou boa capacidade em converter essas jogadas mais curtas ajudou a aproximar a defesa do Pats da linha e abrir a secundária, mas muito do sucesso do ataque de Philadelphia nesse jogo veio da capacidade de Nick Foles de continuamente bater a defesa do Patriots na meia distância e em profundidade com passes verdadeiramente espetaculares.

Mesmo no começo do jogo, quando New England mostrou sua determinação a fechar o jogo de curta distância do Eagles, Foles manteve a primeira campanha do time viva com ótimos passes (mesmo sob pressão), e não parou mais, ao ponto de que o Eagles começou a chamar jogadas com a intenção de deixar Foles ficar com a bola na mão, tomar suas decisões e soltar o braço. Claro, não foi como deixar Drew Brees chamar todas as jogadas e decidir o que fazer o tempo todo (como o Saints frequentemente faz), mas o Eagles foi ficando confortável chamando jogadas para Foles ser mais protagonista do que uma peça para executar um plano, e o camisa 9 passou boa parte da noite jogando passes lindos por cima e no meio de defensores de New England. Foles só teve esses passes longos porque executou bem a parte mais “conservadora” da estratégia, mas o fato dele conseguir ter dado essa dimensão adicional foi gigante. Claro que o QB teve ajuda de um ótimo elenco de apoio e comissão técnica, sem dúvida, que souberam usar todas as armas e chamar algumas jogadas brilhantes (como a quarta descida que resultou em Nick Foles se tornando o primeiro QB da história da NFL a receber um passe para touchdown em um Super Bowl) para ajudar a vida do camisa 9, mas essa vitória não aconteceria sem Foles transcendendo esse papel “protegido” que tantos (inclusive eu) projetavam para ele e jogando como uma estrela.

A vida de Foles e do ataque do Eagles foi tornada um pouco mais fácil pela até agora inexplicada decisão do Patriots de colocar seu CB #2 e herói do Super Bowl 49, Malcolm Butler, no banco de reservas para a partida. Butler, um bom CB e líder do Patriots em snaps defensivos no ano, não jogou um único snap na defesa domingo – apenas com os especialistas. Quem jogou no seu lugar foi Eric Rowe, alguém que o Eagles atacou repetidamente e cedeu várias conversões longas e importantes ao longo do jogo, e quando precisou fazer mudanças na secundária o time colocou Johnson Bademosi e Jordan Richards ao invés de Butler, jogadores bem inferiores que também foram explorados pelo plano ofensivo de Philadelphia. Até agora explicações para a ausência de Butler vai de gripe, a um problema disciplinar, a uma decisão tática/técnica (a versão oficial de Belichick e Patricia), a uma semana ruim de treinos… ninguém realmente sabe. Mas em um jogo que sua secundária tomou 373 jardas e 4 TDs pelo ar (e 41 pontos no total) acho seguro dizer que Malcolm Butler teria feito alguma diferença jogando sobre um CB que não jogou nenhum snap defensivo nos playoffs.

(New England também foi vitima do lado defensivo da bola de dois problemas já bastante conhecidos da franquia: a incapacidade de gerar pressão no QB, pois Foles passou boa parte da noite excessivamente confortável no pocket e não levou nenhum sack, e a dificuldade do time de dar tackles e fazer jogadas em espaço).

E a verdade é que o Eagles precisou muito dessa performance ofensiva e de cada um desses pontos para sobreviver no jogo de ontem. Antes da partida, o principal motivo pelo qual eu acreditava que Philly seria capaz de vencer o jogo era sua forte defesa, em especial sua linha defensiva. Gerar pressão com a linha defensiva é o segredo para vencer Tom Brady, e o Eagles fez isso melhor que qualquer time em 2017. Contra uma linha ofensiva apenas ok do Patriots, parecia ser um confronto favorável ao Eagles para mudar o rumo do jogo.

Mas não aconteceu – a forte linha defensiva do Eagles foi dominada o jogo quase inteiro pela linha ofensiva de New England, e Tom Brady passou grande parte do jogo com tempo e espaço de sobra no pocket para atacar uma confusa secundária de Philadelphia. No raros momentos do jogo que a pressão chegou e forçou Brady a um passe mais difícil, o QB do Patriots tinha algum recebedor totalmente livre na secundária, e Brady continuou achando Hogan e Amendola completamente livres no fundo do campo com uma facilidade incrível. Brady terminou o jogo com 505 jardas, recorde absoluto do Super Bowl, e teve 6 passes completos de 30+ jardas depois de totalizar 0 nas suas últimas 5 decisões.

Brady é um dos maiores da história e teve um jogo fabuloso, cirúrgico, mas o Eagles tinha o tipo de defesa para pelo menos dar mais trabalho ao camisa 12, e com a falta de pressão e um número enorme de erros de comunicação na secundária – que gerou muitos WRs livres – a verdade é que Philly tornou a vida de Brady e do ataque de New England muito mais fácil do que deveria, e o placar ficou em “só” 33 pontos devido a uma série de tiros no pé do próprio Patriots, forçando o ataque a assumir a responsabilidade de manter o time no jogo. Mesmo no final, quando Brandon Graham finalmente conseguiu o único sack do Eagles na partida e forçou o fumble que decidiu o título para Philadelphia, foi talvez a única jogada realmente importante dessa defesa, e não pode apagar o quão mal essa unidade jogou na partida. O Eagles venceu apesar dela, não por causa dela.

E isso é o que é mais impressionante de tudo: o Eagles acabou se encontrando em uma situação onde precisava ganhar a partida jogando exatamente o OPOSTO do jogo que seria ideal para o time, e Philadelphia conseguiu se adaptar em tempo real, manter o ataque vivo, e manter o plano de jogo ao mesmo tempo funcionando (Philly foi perfeito controlando o relógio, segurando a bola por 35 minutos, extendendo campanhas com 12-18 em conversões de terceiras e quartas descidas, e o jogo terrestre funcionou muitíssimo bem) e adaptável o suficiente para essa nova situação. Quando a defesa implodiu, o ataque soltou Foles e conseguiu as jogadas explosivas que precisou. Quando a pressão não chegou em Tom Brady, o ataque terrestre apareceu e o time usou todo o playbook (até demais) em conversões curtas para manter campanhas vivas e manter Brady no banco. Que o time foi capaz de fazer tudo isso e ainda executar em nível suficiente para vencer os favoritos Patriots diz muito sobre esse grupo, o técnico Doug Pederson, e o resto da sua comissão técnica.

Peterson também foi extremamente importante para o título por causa de um outro fator além dos já citados: sua agressividade em quadra. Pederson entendeu algo sobre o qual eu reclamo já faz anos na NFL: times que estão em uma desvantagem sobre seu adversário precisam sempre buscar formas aumentar as chances de anotar pontos adicionais quando tiverem a chance, e a melhor forma é sendo agressivo e assumindo riscos na tomada de decisões.

Pederson e o Eagles buscaram atacar New England desde o primeiro minuto, e nunca se contentaram em manter uma liderança, sempre buscando aumentar e anotar cada vez mais pontos (diferença crucial entre a forma como Philadelphia e Jacksonville encararam New England). Eles foram para uma conversão de 2 pontos cedo na partida (que não deu certo), e capitalizaram ainda mais indo para duas extremamente agressivas e acertadas tentativas de conversão em quartas descidas que mudaram o jogo: a primeira em uma 4th and 1 logo antes do intervalo, quando o Eagles ao invés de aceitar os 3 pontos fáceis converteu o touchdown com a brilhante jogada que rendeu o TD recebendo de Foles; e no segundo tempo, logo após a virada do Patriots, quando Pederson entendeu que sua defesa não estava conseguindo parar Brady e que se devolvesse a bola isso colocaria o destino do jogo nas mãos do Patriots, e optou por chamar uma jogada de passe em uma 4th and 1 no seu próprio campo de defesa – o Eagles converteu a jogada com um passe para Zach Ertz, e marchou para anotar o TD da vitória. Ninguém teria culpado Pederson por ir para o FG e para o punt nessas situações, mas sua decisões agressivas geraram ONZE pontos adicionais para o Eagles, que é exatamente o que uma zebra precisa buscar se quer sair vitoriosa.  Entre isso, seus ajustes táticos e preparação impecável para a partida (a brilhante decisão de usar linhas ofensivas com seis jogadores em alguns momentos da partida não tem sido comentada o suficiente, aliás) e o seu trabalho excelente moldando Foles para a pós temporada, Pederson deu ao seu time uma vantagem importantíssima e que foi decisiva no título. Não são muitos os técnicos que podem se gabar de ter outcoached Bill Belichick em um jogo de playoffs.

Também ajudou que foi um jogo extremamente não-característico por parte do Patriots, e talvez mais importante do seu próprio técnico, Bill Belichick. O Patriots deve boa parte do seu sucesso à sua capacidade de prestar atenção a cada detalhe e executar absolutamente tudo com perfeição,  sendo agressivo nas horas certas, e acima de tudo não cometendo erros de nenhum tipo que de uma vantagem ao adversários. É o time mais preparado e disciplinado que existe. Talvez por isso foi tão chocante ver New England atirando constantemente no próprio pé nessa partida, cometendo todo tipo de erro prático, estratégico e mental que eles são tão bons em evitar, e aproveitar os dos adversários.

Isso começou com Butler indo para o banco, mas mesmo dentro de campo o time perdeu imensas oportunidades por erros bobos. Na segunda campanha, Brandin Cooks perdeu uma ótima chance em um jet sweep em uma 3rd and 2 porque optou por tentar pular o safety do Eagles ao invés de usar sua velocidade para conseguir a conversão simples. Na jogada seguinte, uma 4th para meia jarda, o normalmente agressivo Patriots inexplicavelmente decidiu ser conservador e chutar um FG ao invés de tentar a conversão apesar de ter o melhor QB convertendo sneaks da história da liga – ao invés disso, um snap ruim e um hold pior fizeram o kicker Gostkowski errar o que deveria ser um FG fácil de 26 jardas (o próprio Gostkowski ainda erraria um extra point, custando mais um ponto valioso a New England). Na campanha seguinte, uma jogada brilhantemente desenhada em 3rd and 5 deixou Tom Brady completamente livre para receber um passe de Danny Amendola, só para o camisa 12 deixar cair um passe fácil no que seria um grande ganho e uma posição importante, e prendendo o time na área “morta” do ataque (longe pra FG, perto demais pra punt) – levando a uma tentativa de quarta descida falhada que deu ao Eagles ótima posição de campo para anotar um touchdown cinco jogadas depois. Perto do two minute warning (oi!) do primeiro tempo, Belichick inexplicavelmente não pediu tempo depois de uma recepção longa de Corey Clements que permitiu ao Eagles tirar 40 segundos do relógio e devolver a bola ao Pats com apenas 35 segundos até o intervalo, e logo depois um erro mental de Brady levou o QB a uma corrida de seis jardas no seu campo de defesa que acabou dentro de campo e sem tempos pra pedir, gastando mais do relógio e efetivamente matando as chances do time de pontuar antes do intervalo. E isso sem contar as inúmeras falhas de comunicação e erros de posicionamento defensivos que ajudaram o Eagles a conseguir inúmeros longos ganhos e conversões importantes ao longo da noite. Nessa noite, o Patriots parecia o time inexperiente e nervoso, cometendo erros mentais, tomando decisões erradas, e perdendo nisso pequenas mas valiosas margens para colocar o jogo a seu favor.

E no final isso foi talvez o mais chocante desse Super Bowl: foi o Eagles que venceu o jogo, mas venceu como você esperaria que o Patriots vencesse a partida – com uma performance de elite do seu quarterback (28/43, 373 jardas, 4 TDs totais, 1 Int) apesar de uma má atuação da defesa, ótima preparação e adaptação da comissão técnica, levando vantagem nas decisões dos técnicos ao longo do jogo, com decisões agressivas, e se aproveitando de todo tipo de erro do adversário.


Olhando além do jogão decisivo de domingo a noite, quando Philadelphia ganhou a partida decisiva dentro de campo, esse título do Eagles é o resultado de um trabalho mais longo do ótimo GM/presidente Howie Roseman, e de um processo de anos que levou até esse ponto. Nick Foles foi o grande nome e MVP do Super Bowl, mas esse título nunca aconteceria sem a excelente montagem de elenco que deu ao Eagles um dos mais completos e melhores planteis de toda a NFL.

Pegando emprestado um ponto de Robert Mays, do The Ringer, é impressionante a quantidade de jogadores que montam a espinha dorsal desse elenco do Eagles e que já estão no seu segundo contrato – ou seja, não são nem grandes aquisições recentes que estão impulsionando o time, nem um monte de calouros em seu primeiro contrato. Isso aponta para um trabalho de construção de elenco contínuo e muito bem feito por Roseman e a diretoria do Eagles, e olhando mais de perto fica bem claro o quão especial foi essa construção e como ela agora começou a dar frutos.

Os dois melhores jogadores da defesa do Eagles e o coração da sua linha defensiva (que por sua vez é o pilar dessa ótima defesa, que terminou no Top5 da NFL nos últimos dois anos) são Brandon Graham e Fletcher Cox, dois dos melhores e mais subestimados defensores de toda a NFL. Mas além disso, ambos tem em comum que estão no seu segundo contrato, e sob controle do Eagles em situações favoráveis: Cox assinou ano passado uma enorme extensão de 103 milhões por 6 anos (com potencial out depois de 4), caro mas em linha com o mercado paga para jogadores desse calibre, e que garantem que Philly mantenha o jogador até pelo menos seus 29 anos (2020), quando o time pode cortar Cox quase sem custos se quiser. E o que ajuda o Eagles a pagar esse contrato é que Graham assinou em 2014 um dos mais favoráveis contratos de toda a NFL, 4 anos e 26 milhões de dólares, o que significa que o Eagles mantém seu MVP defensivo de 2017 por mais um ano a um custo ínfimo. E ambos, como disse Mays, estão em seu segundo contrato, jogadores que já estavam no time e foram mantidos com extensões inteligentes.

Outros jogadores defensivos que compuseram a espinha dorsal da defesa são Vinny Curry, que também assinou uma favorável extensão contratual em 2015 e está sob contrato até 2020, e seu outro Pro Bowler, o safety Malcolm Jenkins, que chegou do Saints em 2014 com pouca pompa, jogou muito bem e também garantiu a renovação de contrato. Os quatro estão jogando juntos desde 2014 na Philadelphia.

Ofensivamente, o mesmo acontece com talvez a unidade mais importante e menos falada do Eagles: sua excelente linha ofensiva, uma das 3 melhores da NFL quando saudável. Seus três melhores jogadores são os dois tackles, All-Pro Lane Johnson e o futuro Hall of Famer Jason Peters (que não jogou o Super Bowl, machucado), e o All-Pro Center Jason Kelce. Todos estão – adivinhe! – no seu segundo contrato (ou mais) com o Eagles. Kelce (o segundo melhor jogador do Eagles no Super Bowl) foi uma escolha de sexta rodada que assinou uma extensão de seis anos (37 milhões) em 2014 que hoje parece uma barganha ridícula. Johnson, escolha de primeira rodada, também assinou uma extensão de 5 anos em 2016. Peters tem contrato até o final de 2018, seu terceiro com o Eagles desde que foi adquirido do Bills. Essa linha ofensiva, o núcleo do ataque, está sendo montada e cultivada há anos – mesmo Stephen Wisniewski, que chegou como Center dois anos atrás para jogar de LG, também está em seu segundo contrato com Philadelphia, por 3 ano. O mesmo pode ser dito sobre o melhor recebedor do time, Zach Ertz, tight end que liderou a equipe jardas recebidas e anotou o touchdown do título no Super Bowl – escolha de segunda rodada em 2013, Ertz assinou uma extensão de cinco anos em 2016 (Brent Celek, o outro TE do time, também está no time desde 2007).

Junte tudo isso e você tem, dos dois lados da bola, um excelente núcleo de jogadores nível All-Pro em torno do qual você pode começar a adquirir peças mais pontuais para preencher os espaços e enfim formar uma unidade completa, todos eles já assinados a contratos longos e muitas vezes favoráveis, deixando espaço e margem de manobra para completar essa montagem.

E poucos GMs tem sido mais felizes (e competentes) do que Roseman fazendo esse papel de “esculpir” um elenco ao redor desse ótimo núcleo. Roseman tem sido particularmente eficiente achando jogadores talentosos que caíram de valor, e vendo-os recuperar sua forma e jogar em altíssimo nível pelo Eagles. Timmy Jernigan era um jogador talentoso, mas problemático, que o Ravens se livrou em uma troca na noite do Draft com o Eagles – ele foi titular em 15 jogos na temporada na ótima linha defensiva de Philly, com bom desempenho, antes de assinar uma extensão inteligente de 4 anos. Patrick Robinson, pego por 1M na free agency depois de dois anos ruins e dispensas, foi o melhor cornerback do time na temporada. Torrey Smith foi dispensado de SF, e virou uma adição importante para um corpo de WRs que precisou se remontar da noite para o dia. O Patriots não quis trazer LeGarrett Blount de volta apesar dele ter liderado a NFL em touchdowns em 2016, e o Eagles então adquiriu seu líder em jardas terrestres de 2017 por menos de 1 MM. Quando o Bears estupidamente decidiu que não iria usar a franchise tag em Alshon Jeffery para pagar 18 MM para Mike Glennon, o Eagles imediatamente trouxe o WR em um contrato de um ano para se provar, e depois deu uma extensão extremamente favorável de 4 anos, 27 milhões quando Jeffery liderou o time em touchdowns e foi #2 em jardas. É mais uma vez uma amostra do tipo de pensamento e planejamento que ajudou o Eagles a montar sua base em primeiro lugar: achar os jogadores que quer, de preferência a preços baixos, e usar isso para depois negociar uma renovação longa e barata, formando o núcleo do time e mantendo o espaço aberto para os home runs. Jeffery e Jernigan serão os próximos Jenkins, com os quais nos maravilharemos daqui a dois anos.

E, igualmente importante – ou talvez mais importante ainda – o Eagles também acertou em cheio nos seus home runs quando foi atrás deles. E entre alguns (Rodney McLeod, safety que veio em 2016 como agente livre, vem à mente) nenhum se destaca mais que a aquisição de Carson Wentz na noite do Draft. Procurando seu QB do futuro para ser a peça decisiva desse elenco cada vez, o Eagles pagou um verdadeiro resgate (duas escolhas de primeira, uma de segunda, uma de terceira, uma de quarta rodadas de Draft) para subir até a escolha #2 e selecionar Wentz, um preço enorme que deixou a muitos (e eu me incluo) preocupado com o enorme risco que a franquia estava assumindo – só para o Eagles imediatamente mitigar esse risco trocando seu então-QB (e que ficaria sem espaço com a chegada do calouro) Sam Bradford para o Vikings, recuperando a escolha de primeira rodada do Draft perdida e tornando o valor pago por Wentz (e portanto o risco) muito mais aceitável.

Desnecessário dizer, esses movimentos não poderiam dar muito mais certo: Wentz no seu segundo ano já jogou em nível MVP e possivelmente ganharia o troféu se não se machucasse, e a escolha adquirida do Vikings se tornou Derek Barnett, que em meio a uma sólida temporada de calouro foi quem forçou o fumble crucial em cima de Case Keenum na final da NFC para mudar os rumos da partida, E foi quem recuperou o fumble de Tom Brady no Super Bowl que efetivamente deu o título ao Eagles.

E foi basicamente assim que Howie Roseman e o Eagles montaram o elenco campeão do Super Bowl, um dos mais únicos, criativos e eficientes processos de montagem de elenco que eu lembro de ter visto na NFL nos últimos tempos: identificando ao longo do tempo as peças que iria querer como base (e trabalhando para manter esses jogadores em contratos favoráveis), trazendo os jogadores certos como complemento, identificando os talentos baratos, e acertando no Draft – e, claro, na escolha do seu técnico.

O Eagles agora tem algumas decisões interessantes a tomar pela frente, e a mais interessante diz respeito ao seu Super Bowl MVP, Nick Foles. Apesar da fantástica pós-temporada e do que aconteceu com outro QB mediano que ganhou o Super Bowl recentemente (Joe Flacco), é muito difícil imaginar o Eagles dando uma extensão grande de contrato para Foles. Carson Wentz é melhor e o QB do futuro da franquia, e tem zero chance do time fazer essa mudança de planos. Foles tem mais um ano apenas de contrato (a aceitáveis 7,5 milhões), e depois dessa pós-temporada deve comandar mais dinheiro no mercado do que o apertado salarialmente Eagles vai lhe pagar para ser reserva. Claro que Foles pode aceitar ganhar menos para permanecer em uma situação estável e conhecida, mas isso seria deixar bastante dinheiro na mesa.

Então Philly tem duas opções, e a que parece mais simples é ir para o mercado e ver o que Foles comandaria em uma troca. Super Bowls MVP não costumam ficar disponíveis para troca desse jeito, então não da pra dizer exatamente qual seria o preço, ou como os times valorizariam esse mês fantástico de Foles sobre a mediocridade que foi a maioria da sua carreira. Mas com um ano de contrato ainda a um preço bom, e vários times na NFL procurando um QB, não é difícil de imaginar que pelo menos o camisa 9 geraria algum interesse, nem que seja um time em busca de um aluguel de um ano para ver se Foles consegue repetir essa performance em outro ambiente antes de dar um contrato maior que Foles talvez recebesse como agente livre mesmo assim, mitigando assim o risco. O Eagles está sem duas escolhas importantes de Draft por causa de trocas passadas (segunda e terceira rodadas), e com a situação salarial ficando complicada para a frente esses jogadores jovens e baratos podem ser peças importantes – trocar Foles por escolhas ajudaria a repor esse capital.

Mas claro, isso dependeria muito do tipo de mercado que Foles atrairia no ano de um Draft particularmente forte de QBs e vários free agents interessantes da posição, o que limitaria seu mercado um pouco. Considerando o que foi pago por jogadores melhores como Garoppolo e Alex Smith, é possível que o interesse por Foles não se traduza em uma oferta muito boa.

Nesse caso, o Eagles pode optar por simplesmente manter Foles no seu time para 2018. Philadelphia já tem seu Franchise QB para o futuro, mas Wentz está saindo de uma lesão muito séria e ninguém sabe bem como vai voltar para 2018, então Foles seria uma ótima opção de segurança até o time ver como seu quase-MVP vai jogar ano que vem. Caso Wentz volte logo e bem, o time sempre pode trocar Foles depois na temporada, mas dado o estilo de jogo físico de Wentz talvez não fosse uma má ideia manter o atual MVP do Super Bowl como plano B. Isso possivelmente custaria Foles ao Eagles daqui a um ano, embora ainda possa render uma escolha compensatória se isso acontecer, e também pelo menos da um ano a mais com uma margem de erro maior para a volta de Wentz – e se tem um time que sabe o valor de um bom QB reserva, é o Eagles. Ambas as opções – trocar ou manter Foles – tem suas vantagens e desvantagens, e imagino que a questão de saúde de Wentz e as ofertas a serem feitas por Foles serão os principais determinantes da decisão do Eagles.

O resto elenco também está tecnicamente montado para 2018, com quase todas as principais peças ainda sob contrato por mais um ano, o que torna Philadelphia um time realmente assustador para o ano que vem com Wentz de volta. O time está bastante apertado salarialmente, o que vai limitar sua capacidade de adquirir novos talentos, e isso deve custar ao time alguns jogadores úteis de 2017 e atrapalhar a profundidade da equipe, como Dannell Ellerbe, Trey Burton e Blount, mas nenhum dos quais não pode ser reposto por Philly. Quem mais deve fazer falta é Patrick Robinson, que deve comandar um bom dinheiro na free agency, mas o Eagles já achou seu Patrick Robinson uma vez barato no mercado.

A situação de Philly começa a ficar mais complicada a partir do final da temporada 2018, quando vários jogadores importantes do núcleo começam a virar agentes livres e devem começar a comandar pagamentos ainda maiores, ainda mais em um momento que o Eagles começará a ter em mente uma extensão extremamente cara para Wentz. Nesse ponto, é possível que esse núcleo tão bom e tão perfeitamente encaixado (até salarialmente) comece a se desfazer, e Philadelphia precisa continuar acertando tantos movimentos (sempre difícil repetir com a mesma eficiência) como antes se quiser manter tudo funcionando tão redondo. Existe um motivo para que New England seja o único time que conseguiu manter um time tão perfeitamente constante e competitivo por tanto tempo na NFL recente.

Talvez daqui a um ano a situação do Eagles não pareça tão boa, e Roseman esteja se preparando para um pequeno desmanche, um pequeno passo atrás. Talvez amanhã o excelente GM da Philadelphia precise já começar a se mover para mitigar isso.

Mas não hoje. Hoje, isso não importa. Hoje, o Eagles não tem que pensar em reconstruir, não tem que pensar em salários, e não tem que pensar em desmanche. Hoje, o Eagles não é um time planejando o amanhã.

Hoje, o Eagles é o campeão de toda a NFL.

3 comments

  1. Por isso gosto do TMW. Único blog que leio, o qual não fez uma análise unidimensional da partida. Chega a ser engraçado de tão ridículo, como as opiniões centralizam no Patriots. O ataque foi bem, Brady é espetacular. Esquece do bom trabalho da linha dos erros da defesa, etc. A defesa tomou 41 pontos, culpa do BB, da defesa lixo. Esquecem do bom trabalho do Foles, da excelente comissão técnica do Eagles, etc. Espero que algum dia as pessoas entendam que o esporte é coletivo e jogado dos dois lados do campo.

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