Blake Griffin vai para Detroit

Blake
“Detroit?! COME ON, MAN!!” (Foto: Jayne Kamin-Oncea, USA Today)

O TM Warning está de volta, em uma nova casa, novo endereço e novo formato, e veio para ficar! E você pode nos ajudar a manter o site vivo e funcionando se tornando um assinante, e ajudando não só o TM Warning a sobreviver, como a melhorar e expandir cada vez mais o seu conteúdo!

O conteúdo do site será 100% aberto para todos durante um mês, até 18/02, quando parte dele – apenas uma parte – será fechado para nossos assinantes. Então não perca tempo e torne-se um assinante para ter acesso a todo nosso conteúdo!

Ou, se preferir,  leia tudo por trás da mudança na nossa coluna de inauguração, e saiba como esse novo site vai funcionar!


 

Pra ser sincero, essa não deveria ser a coluna dessa semana. A coluna dessa semana era – e foi – sobre a lesão de DeMarcus Cousins, e o que isso significa para o Pelicans no curto e longo prazo. Essa coluna foi ao ar excepcionalmente ontem porque o Pistons e Clippers me fazem o FAVOR de adicionar ainda mais fogo em uma das quinzenas mais agitadas e com assunto da NBA nos últimos tempos, então está sobrando assunto para coluna de menos. Então vocês ganham uma coluna extra essa semana (a coluna de sexta vai ao ar normalmente), e não deixem de ler a coluna de ontem sobre Boogie Cousins.

Então vamos lá. A não ser que você more sob uma rocha (ou em um abacaxi embaixo do mar) você provavelmente já sabe a essa altura que o Clippers e o Pistons acertaram segunda a noite mais uma troca bombástica, o envio de Blake Griffin para Detroit em troca basicamente de Avery Bradley, Tobias Harris e uma escolha de primeira rodada. Então com eu tenho – surpresa! – coisas para falar a respeito, e decidi fazer esse post “extra” de emergência essa semana para discutir quatro aspectos interessantes da troca. Vou tentar ser breve (tentar!) dessa vez (spoiler: eu falhei), começando por…

O que a troca significa para o Pistons

De certa forma, essa troca por Blake Griffin é uma versão piorada da troca que o Pelicans fez ano passado por DeMarcus Cousins, e sobre a qual eu escrevi brevemente na coluna de ontem. Detroit se viu em uma situação de enorme estagnação e mediocridade, e fazer uma troca de alto risco por uma estrela que estava inesperadamente no mercado era a única chance do time de adquirir um jogador desse calibre e tentar quebrar o estado estagnado da franquia rumo a coisas melhores. Nesse sentido, lembra bastante a aposta de New Orleans por Boogie.

A principal diferença, claro, é a motivação por trás da troca. Para o Pelicans, adquirir Cousins e elevar o potencial da franquia era sobre o longo prazo, uma forma de melhorar a equipe o suficiente e conseguir os resultados necessários para convencer sua uma superestrela que o time já tinha – Anthony Davis – a ficar em New Orleans quando seu contrato acabasse, ao invés de se ver na situação de ter que trocar sua estrela geracional. Para isso o time precisava de vitórias, precisava mostrar uma perspectiva de melhora que até então não existia, e adquirir uma segunda estrela foi a forma que o Pelicans encontrou para fazer isso.

Para o Pistons, o motivo passa muito mais perto de Stan Van Gundy, atual técnico e GM do time que viu o time que ele deveria estar conduzindo a uma volta por cima não só estagnar, mas até afundar em momentos. Van Gundy precisa mostrar resultados ou vai perder o emprego, e portanto é o tipo de GM desesperado que precisa ir para o all-in de forma a tentar mudar a situação atual do time e salvar o próprio cargo.

Detroit foi uma das grandes historias do começo da temporada, figurando no topo do Leste após um fantástico começo de 14-6, e se mantendo forte na briga pelos playoffs com uma sólida campanha de 20-15 na virada do ano mesmo após a inevitável regressão ter chegado. O problema é que foi então que Reggie Jackson se machucou, e a temporada do Pistons foi pelo ralo: foram 2 vitórias e 11 derrotas nos 13 jogos (até a vitória de ontem contra o Cavaliers, ainda sem Blake) desde então, colocando Detroit com uma campanha de 23-26 e dois jogos atrás da última vaga dos playoffs do Leste, pertencente ao ascendente Sixers. Detroit caminha para ficar fora da pós-temporada pelo segundo ano seguido, e com poucos ativos ou jovens de grande potencial o caminho para sair da situação atual parece bastante duvidoso. Por isso Van Gundy optou por ir para o tudo-ou-nada em adquirir uma estrela em Blake Griffin.

Grande parte do problema da queda do Pistons foi a lesão de Reggie Jackson, que tirou do time aquela que é basicamente sua única arma para começar jogadas e iniciar o ataque, o pick and roll entre Jackson e Andre Drummond –  Detroit tem o terceiro pior ataque da NBA desde a lesão – e chegada de Griffin ajudaria a mitigar essa situação. Griffin é um dos melhores jogadores de garrafão passadores e criadores da história da NBA, e sua presença daria ao time uma forma de iniciar o ataque com Jackson fora, e até uma alternativa a mais (muito necessária) para quando o armador voltar. Então nesse sentido a primeira necessidade para a chegada de Blake é clara.

A segunda também é mais óbvia ainda: Griffin é um jogador melhor do que qualquer coisa que o Pistons tem no seu time e teve nos últimos muitos (muitos!) anos. Saudável, Blake ainda é uma estrela: em Los Angeles tinha média de 23 pontos, 9 rebotes e 5,4 assistências por jogo, embora sua eficiência tenha decaído bastante esse ano. Blake consegue punir jogadores menores no garrafão, é um terror em situações de semi-transição, e um excelente passador, tanto para assistências como para iniciar uma movimentação ofensiva – o ataque do Clippers cai consideravelmente tanto em eficiência como em % de assistências sem Blake em quadra. A chegada de Griffin inegavelmente da ao Pistons um jogador em torno do qual você pode construir seu ataque, eleva o potencial do time, e soluciona o maior problema imediato da equipe.

Mas Blake tem dois problemas, e foram eles que tornaram o camisa 32 disponível em primeiro lugar, e por tão pouco. O primeiro, e mais conhecido, são as lesões. Blake tem sido bom quando está em quadra, mas também perdeu já 16 jogos da temporada com diversas lesões, e esse também é um problema antigo do jogador: já são quatro anos seguidos com Blake perdendo 15+ jogos por lesão, e conforme essa lesões vão acumulando a tendência é que isso piore, inclusive com a idade. Essas lesões também vão cobrando o preço sobre o jogo de Griffin: sua lendária explosão e impulsão não são hoje nem sombra do que eram 5-6 anos atrás, nem sua velocidade – contusões repetidas (especialmente no joelho) roubaram o ala-pivô de muitos seus atributos físicos de outro planeta. Blake ainda é um jogador atlético, claro, e tem muita habilidade para complementar o físico e ainda fazer dele um bom jogador mesmo quando o corpo não corresponde, mas é algo que tem lentamente minado seu jogo e limitado o que Blake pode fazer em quadra, o que levanta riscos consideráveis sobre como seu jogo vai envelhecer no resto do seu contrato.

Porque esse é o segundo grande problema de Blake: seu contrato. Los Angeles deu ao seu então Franhcise Player o contrato “supermáximo” em Julho passado, 5 anos e 173 milhões de dólares, uma soma astronômica. Considerando a situação de lesões de Blake (bem preocupante) com a duração e valor do contrato isso significa que o Pistons está se comprometendo com um jogador de altíssimo risco, alguém cujo físico não da mostras de que vai aguentar o ritmo da NBA e que tende a envelhecer mal, em um contrato que sozinho praticamente entope seu espaço salarial e limita sua flexibilidade. O Clippers fez a troca basicamente para se livrar desse contrato, e agora o Pistons vai se ver pagando quase 60 milhões e 60% do teto salarial para dois jogadores (Blake e Andre Drummond) que não são um bom encaixe no papel. Junte a isso o péssimo contrato de Reggie Jackson, e o Pistons está totalmente limitado salarialmente pelos próximos anos. É uma grande aposta de que esse núcleo vai funcionar junto, porque as opções para o Pistons daqui para frente ficam extremamente limitadas.

O encaixe dentro de quadra também vai ser um grande desafio, e está longe de ser uma certeza. Muita gente está assumindo que como Blake Griffin rendeu bem jogando ao lado de DeAndre Jordan isso significa que não terá tanta dificuldade jogando ao lado de outro pivô sem arremesso, atlético e máquina de rebotes em Andre Drummond, mas isso não é verdade. Blake teve que adaptar e mudar muito seu jogo em Los Angeles para fazer o encaixe funcionar – muitas vezes até em uma direção que era pior para o seu jogo – e parte do que fez essa dupla funcionar era a capacidade de Jordan de criar espaçamento com seus cortes para a cesta e vivendo acima do aro. Drummond não é nem de longe tão bom nisso (nos últimos 2 anos, Jordan ficou nos 81st e 77th percentis da NBA pontuando em cortes. Drummond ficou nos 45th e 42nd percentis na mesma jogada), e não vai ter a química e entrosamento que DeAndre e Griffin demoraram anos para desenvolver. Claro que partes do jogo a dois – os passes em lob, as manobras apertadas – se aproveitam, mas está bem longe de ser uma situação tão parecida como alguns parecem pensar.

A revolução ofensiva no jogo de Drummond esse ano se deu com o pivô se afastando mais do garrafão e jogando nos elbows (a quina do garrafão), manobra que destravou seu jogo com os passes e gerou mais espaçamento, mas é também a região que Griffin mais gosta de usar, e agora você apertou ainda mais o espaçamento já complicado da equipe. Os dois vão precisar se adaptar rapidamente a isso, e terão que jogar mais fora da zona de conforto do que antes.

Imagino que Van Gundy vá separar ao máximo os minutos dos dois jogadores, para sempre ter alguém em quadra realizando essa função (de preferência com alguém junto de Anthony Tolliver espaçando a quadra na posição 4), mas quando jogarem juntos será um grande desafio para fazer isso funcionar. Vai depender muito de como os dois se adaptam a jogar com um no topo e um embaixo do garrafão, e os espaços para os passes vão ficar mais apertados em relação ao que ambos estavam acostumados. Bons arremessadores de três serão essenciais para fazer isso funcionar, o que também é um problema considerando que Detroit acabou de mandar Bradley (38 3PT%) e Harris (41%) para Los Angeles, os dois jogadores que mais chutavam de três na equipe. Griffin está chutando 34% de três em quase 6 bolas por jogo, uma mudança bem vinda e que vai ajudar, mas ainda é um aproveitamento mediano que times provavelmente não vão respeitar tanto. Eu imagino que Detroit vá conseguir se virar bem nos minutos que Blake jogar sozinho como único homem no garrafão, mas para esse time atingir seu novo potencial ele precisa aprender a se maximizar com a dupla Griffin-Drummond junta em quadra, e isso vai ser um desafio e tanto para Van Gundy.

Em resumo, eu não gosto dessa troca para o Pistons: me parece o tipo de troca tudo-ou-nada onde o “tudo” significa ficar preso na mediocridade e na metade de baixo dos playoffs do Leste pelos próximos anos salvo alguma grande mudança. E talvez isso seja aceitável para o Pistons e o que eles buscam mesmo, mas dado o risco e o quanto o time está se prendendo pelos próximos 3 ou 4 anos, não me parece que o potencial da troca compensa. O encaixe de Blake no novo time será bem difícil, e agora o time precisa apostar muito que pelo menos um seus jovens jogadores já no time – Luke Kennard, Stanley Johnson e Henry Ellenson –  vá ter um salto além das expectativas se quiser ser mais do que um time mediano em uma conferência fraca.

O Pistons precisava realmente se movimentar para sair da situação parada que estava, mas eu me pergunto se o que o Pistons fez com essa troca não foi se travar ainda mais, e por mais tempo.

O que a troca significa para o Clippers

Para o Clippers, o ponto de partida dessa troca é bem simples: se livrar do contrato de Blake Griffin.

Não, é claro, de Blake Griffin em si – Clippers está apenas 1 jogo atrás da oitava vaga nos playoffs do Oeste e 2 jogos atrás da sexta colocação, e ter Blake no time torna a equipe melhor e mais provável de conseguir essa vaga. O que o Clippers não queria é exatamente o que foi descrito acima, ter que pagar um contrato de 5 anos e 173 milhões para um jogador com graves problemas de lesões e que tem um enorme risco conforme for envelhecendo. O Clippers ofereceu esse contrato a Blake (mais sobre isso daqui a pouco) em um momento que sua intenção era se manter competitivo no Oeste e buscar os playoffs mesmo sem Chris Paul, mas com o tempo, na visão do Clippers simplesmente não fazia mais sentido se prender a esse contrato – um contrato que tende a ficar pior a cada ano que passa – no longo prazo.

Em outras palavras, para o Clippers essa troca não se trata do basquete dentro de quadra, e sim da flexibilidade que o time agora adquiriu. Com o contrato de Griffin nos livros, o primo pobre de Los Angeles estava basicamente destinado a ser o que o Pistons agora é, um time preso na mediocridade, bom o bastante para brigar pelos playoffs, mas não o bastante para nada a mais, e sem muita margem para mudança. Sem sua estrela, de repente o time ganha flexibilidade a partir de 2019, dependendo de como jogar suas cartas: Avery Bradley, DeAndre Jordan e Lou Williams tem seu contrato encerrando ao final da temporada; Tobias Harris e Austin Rivers viram free agents em 2019. Dependendo de como o Clippers decidir reassinar esses jogadores, o time agora está em ótima posição de entrar em 2019 com muito espaço salarial para atrair uma ou até duas estrelas em contratos máximos, em uma classe de free agents que conta (entre outros) com Kyrie Irving, Klay Thompson, Jimmy Butler e Kawhi Leonard. De certa forma, o movimento faz sentido: o Clippers está dando um passo para trás para abrir a possibilidade de dar dois para frente no futuro.

O jornalista Marc Stein também disse que o Clippers acredita que possa se colocar na briga por LeBron James nesse verão com essa troca. Embora improvável, faz algum sentido: o desejo de LeBron de jogar em Los Angeles é conhecido; o Lakers está uma bagunça cada vez mais disfuncional nos níveis altos da organização; e o Clippers agora conta com uma figura poderosa e extremamente respeitada (inclusive pelo próprio James) no lendário Jerry West, que tem muito peso com jogadores ao redor da liga. O Clippers hoje não teria espaço para um contrato máximo para King James, mas pelo menos o time está agora na posição de abrir com uma ou outra troca bem colocada. Por mais remota que seja a chance, é esperto do Clippers manter essa avenida aberta.

Para onde o Clippers vai daqui ainda é incerto. O time ainda tem dois jogadores bastante cobiçados em contratos expirantes, Lou Williams e DeAndre Jordan, e ambos tem sido visados por outros times. Segundo Woj, da ESPN americana, o time ainda está ouvindo propostas por ambos, mas não está com urgência de trocar nenhum dos dois a não ser que seja por um bom retorno, e extensões contratuais também estão sendo discutidas. Zach Lowe, também da ESPN, adiciona que a posição do Clippers quanto a trocar DAJ/Lou não mudou depois de trocarem Griffin. Em outras palavras, essa troca não necessariamente prenuncia um desmanche completo, ou mesmo outras trocas.

O Clippers hoje tem as duas avenidas abertas. Se quiserem, ainda estão em boas condições de brigar pelas últimas vagas do Oeste, especialmente depois da lesão de Cousins em New Orleans. Bradley é um ótimo defensor com bom chute de 3 pontos, e Tobias Harris é um jogador de 25 anos que tem melhorado em todos os seus anos na NBA e foi quase um All-Star no Leste – ambos trazem uma versatilidade e profundidade no perímetro e nas alas que faltava ao Clippers esse ano, especialmente com as lesões de Blake e Gallinari. Ambos ainda podem ajudar o time, e se mantiverem Lou e/ou DeAndre é bem possível imaginar esse time continuado forte na briga pela pós-temporada.

Mas Los Angeles ainda está em boa posição para mais trocas se assim quiser, com dois dos jogadores mais procurados do mercado, e múltiplas trocas poderiam colocar o time em um não tão discreto tanking que pode dar à franquia duas escolhas de loteria (a própria e a do Pistons) em um bom Draft. Segundo Stein, o Clippers estaria buscando trocas que os ajudassem em uma busca por LeBron, mas é incerto exatamente o que isso quer dizer – usar Lou/DAJ para despejar um contrato (Gallo ou Rivers?), talvez? Ou então que estão buscando em troca jogadores/escolhas que podem servir de fundação para o futuro? É difícil dizer, mas o que da a entender é que o Clippers não se ve obrigado a fazer a troca, e só vai trocar diante de uma boa oferta.

O que faz sentido: abrir espaço salarial é uma parte, mas você ainda precisa convencer os free agents a virem até você, e perder muitos jogos raramente ajuda nesse sentido. Então se vai perder a chance de brigar por playoffs ao trocar esses jogadores tem que ser algo que também ajude você a atrair gente nova – peças que formem a base de um novo time promissor. O próprio Clippers provavelmente não sabe que caminho vai seguir, e isso pode ser bom: ambas as opções tem suas vantagens, e qual seguir vai depender de quais ofertas aparecem pela frente. O que o Clippers NÃO vai fazer nessas trocas, muito provavelmente, é adquirir um contrato longo que comprometa sua recém-adquirida flexibilidade financeira (estou olhando para vocês, Tristan Thompson e JR Smith), a não ser que venha com um “adoçante” adequado (como a escolha do Nets). O resto parece estar na mesa.

Meu maior problema com a troca para o Clippers: vale a pena, por uma escolha de fim de loteria (provavelmente) e Tobias Harris (Bradley é free agent ao final do ano) basicamente, trocar o maior jogador da história da franquia? Eu sei que não foram eles o motivo da troca, mas é o que você tem para mostrar agora para sua torcida em uma cidade que já te ve como segunda opção, a poucos anos de construir um novo ginásio. Steve Ballmer, o dono do Clippers, acredita que é capaz de com o tempo mudar a imagem do Clippers em LA e na NBA, e começar a atrair os free agents e torcedores se beneficiando do seu mercado em Los Angeles. Não sei se trocar um jogador tão popular como Griffin, uma legítima estrela, a cara da franquia, sucesso com o público jovem E o jogador que foi vendido pelo Clippers como “Clipper para a vida” é o caminho para isso.

Mas tem um outro aspecto envolvido para o Clippers, que é…

O que a troca diz sobre a direção do Clippers?

Como citado acima, o Clippers teve uma grande aquisição para essa temporada, e ela não se deu dentro de campo: foi a chegada do Logo, Jerry West, para compor a diretoria da franquia. West, um dos melhores jogadores da história da NBA, lenda do Lakers, craque de um time campeão (1971), GM de 8 títulos depois de parar de jogar, alto executivo de outros 2, e talvez a figura mais respeitada ao redor da NBA na atualidade.

E desde que ele chegou o Clippers parecia viver uma pequena disputa interna ao redor do dono Steve Ballmer sobre qual era a direção da franquia. O contrato de Blake dessa offseason – 5 anos, 173 milhões – e outras movimentações (como o contrato de Gallinari) indicavam que as vozes sendo ouvidas ainda eram as que o time precisava investir pra continuar competitivo no curto prazo, buscar se estabelecer como um time regular de playoffs, e isso motivou os contratos caros e longos dessa offseason. Essa era supostamente a vertente preferida do técnico Doc Rivers, que tinha muito do poder de decisão na franquia antes desse ano, e que famosamente não queria fazer parte de uma reconstrução em Boston quando forçou sua troca para o Clippers (o mundo da voltas).

A troca de Blake Griffin indica que isso pode estar mudando. Embora não seja uma reconstrução do zero, parece uma mostra clara de que o Clippers está caminhando em uma direção diferente, a de tentar percorrer a difícil trilha de reconstruir sem precisar destruir o time do zero, tentar planejar para o futuro enquanto continua competitivo no longo prazo. É um caminho mais difícil e de resultado mais incerto, mas é o que Jerry West sempre advocou, e ajudou a fazer com sucesso em Los Angeles e depois em Golden State – porque West é um dos arquitetos do monstro que é o Warriors como o conhecemos hoje (West entrou para a diretoria de Golden State em 2011, e você sabe o que veio depois).

Essa troca tem muito a cara de West, o que indica que o ex-armador do Lakers finalmente começou a impor suas visões e suas ideias junto a Steve Ballmer. Ballmer não queria – nunca quis – recomeçar do zero em uma franquia com tão pouco destaque e margem pra erro. E, pelo visto, ele não vai precisar – salvo alguma grande troca, o time ainda parece em boa posição para brigar por uma vaga nos playoffs e manter a vontade de Ballmer viva. E esse tipo de visão – visão de médio prazo, o time se antecipando ao resto da NBA pensando na free agency de 2019 – pode ser muito benéfica para um time como o Clippers. Se essa troca significa que Jerry West agora está no comando, isso por si só já é uma notícia excelente para o Clippers.

E tem o seguinte: West sabe muito bem o valor do mercado de Los Angeles, e do respeito que uma figura respeitada no alto da hierarquia de uma franquia importa (pense Pat Riley em Miami). Agentes e jogadores – e especialmente estrelas – ao redor da NBA conhecem West, reverenciam sua história e, mais importante, suas conquistas. É uma imagem de estabilidade que uma franquia como o Clippers precisa desesperadamente. Abrindo espaço salarial e sonhando até com LeBron, Los Angeles mostra que está disposto a apostar em uma atratividade que a franquia nunca teve, graças a uma figura que a franquia também nunca teve em sua história. Isso importou quando Buss e West construíram duas dinastias em Los Angeles. Isso importou quando Lacob, West e Myers construíram outra dinastia em Golden State. Faz todo o sentido do mundo para o Clippers apostar nisso, e se trocar sua estrela foi o preço, pode valer muito a pena para a franquia. Eu que não sou louco de duvidar do cara que literalmente é o Logo da NBA.

O que a troca significa para Blake Griffin

Na NBA, somos constantemente lembrados disso, mas essa troca é mais um lembrete de que não devemos nunca exigir ou cobrar que jogadores sejam “leais” aos times ao invés de fazer as coisas que são melhores para eles mesmos. Todo ano que um jogador importante sai do seu time como agente livre tem gente que chama de “traidor”, queima camisa ou age como se o jogador não pudesse agir pensando nos seus próprios interesses – o que é ridículo em vários níveis, mas especialmente considerando as franquias também raramente colocam os seus interesses em segundo plano para pensar em lealdade. A troca de Blake Griffin é só o exemplo mais recente disso.

Em uma coluna no final de outubro, o grande Zach Lowe revelou alguns detalhes sobre como foi a reunião do então agente livre Griffin com o Clippers no dia 01/07 para tratar de uma possível renovação contratual. Segundo Lowe, quando Griffin entrou no Staples Center, ele se viu dentro de um pequeno labirinto montado pelo Clippers, e em cada parede tinha uma foto que ia contando a história da sua vida – Blake com o irmão quando criança, Blake jogando na universidade, Blake jogando pelo Clippers, etc. Quando chegou ao final, o labirinto dava em um sofá com a vista aberta para a quadra do Staples Center (vazio), com o barulho de torcida vibrando, o anunciante do Staples Center dizendo que estavam ali reunidos hoje para honrar Blake – “Um Clipper para a vida” – pelo Clippers, e sua camisa sendo arguida até o teto do Staples em uma simulação de uma cerimônia de aposentadoria da camisa. O futuro que esperava Blake caso decidisse renovar com o Clippers, disseram os dirigentes. Blake era e seria para sempre a cara da franquia.

Blake Griffin assinou o contrato. E foi trocado seis meses depois. Um abraço para o “Clipper para a vida“.

Foi uma decisão de negócios, e Blake sabe disso. Ele é um dos jogadores mais inteligentes e articulados da NBA, e sabe muito bem como essas coisas funcionam.

Ainda assim, é difícil não se sentir um pouco triste por Blake (ou tão triste quanto podemos ficar de alguém que vai ganhar 173 milhões em 5 anos), alguém que chegou na franquia durante um dos muitos períodos de baixa, foi a principal causa da volta por cima rumo ao melhor período da sua história, e agora sai pela porta dos fundos desse jeito depois de toda a festa que a franquia fez – privada e publicamente – sobre Blake ser o símbolo do Clippers, o Clipper para a vida, e tudo mais. Blake também é uma pessoa que gostava muito de morar em Los Angeles, tinha uma carreira secundária como comediante e interesses na produção de filmes e comerciais – morar em LA foi parte do que atraia Blake, e agora vai ter que se mudar pra Detroit e deixar tudo isso pra trás. Não é um jeito legal de acabar sua jornada em LA, uma jornada tão vitoriosa, e ver o maior jogador da história do Clippers saindo pela porta dos fundos dessa maneira deixa um gosto muito amargo na boca.

De novo, é negócios. É como a NBA funciona. Times e jogadores tem o direito de fazer isso. Mas eu ainda admito que é uma troca que me deixou triste num nível pessoal, por ver um jogador tão simbólico e emblemático para uma franquia sendo trocado desse jeito. Lealdade nos esportes pode ser um mito, mas ainda é um que nós gostamos de nos enganar a respeito.

As estatísticas e dados dessa coluna vieram dos seguintes sites: Basketball Reference, NBA Stats, Cleaning the Glass, Synergy Sports, Spotrac, ESPN Stats and Info.

 

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s