A Maldição de Sam Bowie

Bowie

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Essa coluna foi originalmente postada no nosso endereço antigo em 17/11/2017, e estamos repostando como comemoração do lançamento do novo site. Todas as estatísticas e informações estão atualizadas apenas até esta dada. 


 

Na última quarta feira (15/11), no Staples Center, aconteceu um jogo de NBA entre Sixers Lakers, dois dos times jovens mais interessantes da NBA. E entre vários motivos pelos quais o confronto gerou antecipação entre fãs e mídia foi o confronto de dois dos calouros com mais hype da temporada: o australiano Ben Simmons, armador (de 2 metros e 10, mas armador) do Sixers e escolha #1 no Draft de 2016, contra Lonzo Ball, armador do Lakers recém-escolhido #2 no Draft.

Mas se Simmons brilhou na partida com 18 pontos, 10 assistências, 9 rebotes e 5 roubos de bola, o mesmo não pode ser dito do muito falado calouro de Los Angeles. Lonzo Ball terminou o jogo com 2 pontos, 2 assistências e 2 turnovers, acertando apenas 1 de 9 arremessos e errando todas as 6 bolas de três pontos que tentou, antes de passar o quarto período inteiro sentado no banco de reservas – pela segunda partida seguida. Nos seus 21 minutos de quadra, o Lakers foi um -18. Nos seus 27 minutos no banco, o Lakers foi +12 em quadra. A partida ruim continuou uma temporada bastante fraca e decepcionante de um dos calouros mais aguardados e comentados dos últimos anos.

(Joel Embiid, diga-se de passagem, anotou 46 pontos, 15 rebotes, 7 assistências e 7 tocos na partida, números que nenhum jogador da história da NBA anotou oficialmente me uma partida).

Claro, catorze jogos não dizem nada sobre a capacidade de Lonzo (ou qualquer outro calouro) de se tornar um grande jogador de NBA. É uma amostra muito pequena, e calouros sempre terão maior demora e dificuldade para se adaptar ao jogo mais rápido e físico da NBA. É muito cedo para falar que Ball não será um bom jogador de basquete. Seu talento é real, e seus passes já são de altíssimo nível – ele provavelmente ficará bem.

Ainda assim, existe algo maior e mais preocupante que pode atrapalhar Lonzo na sua trajetória profissional. Ao contrário do que muitos pensam, não é seu arremesso, nem o excesso de hype, e nem seu pai falastrão – e sim uma influência que começou 14 anos antes de Lonzo Ball sequer nascer.

Estou falando, é claro, da Maldição de Sam Bowie.

Para aqueles que não sabem do que eu estou falando, Sam Bowie era um pivô da universidade de Kentucky que foi a segunda escolha do Draft em 1984. Bowie ficou cinco anos em Kentucky (perdendo dois deles por conta de lesões no pé) e, quando foi para o Draft, já era dois anos mais velho do que a grande maioria dos prospectos da época (tinha 23 no seu ano de calouro). Sam era um pivô bem alto e um jogador bastante habilidoso e refinado próximo à cesta quando saudável, mas lesões no pé e na perna (as mesmas da época de Kentucky) acabaram com sua carreira –  Bowie jogou 60 jogos ou mais apenas seis vezes na sua carreira e nunca conseguiu fazer nada demais em quadra. Depois de 11 anos decepcionantes e marcados por lesões, Bowie se aposentou da NBA.

Por si só, a carreira de Bowie não teve nada de especial – um bust talentoso que até jogou bem quando saudável mas foi traído por problemas físicos. Como Sam, tem dezenas de outros jogadores semelhantes na história da liga. O que fez de Bowie diferente – e marcou seu nome de forma infeliz na história da NBA – é que uma escolha depois do Blazers ter pego Bowie, o Chicago Bulls escolheu um tal de Michael Jordan para o seu time. E o resto é história.

(Curiosidade interessante: no Draft de 1984 – em que o Rockets escolheu Hakeem #1, o Blazers pegou Bowie #2 e o Bulls ficou com o grande prêmio no #3 – o Rockets negociou uma troca com o Blazers no qual enviaria seu então Frachise PlayerRalph Sampson, em troca de um calouro de pouca expressão chamado Clyde Drexler e a escolha #2 para pegar Michael Jordan. No final, o Rockets recuou e nunca fez a troca. E foi assim que chegamos tão perto de ver Hakeem, Jordan E Clyde Drexler jogando sua carreira juntos no mesmo time. Durma com essa.)

Mas quando o Blazers passou Jordan para pegar Bowie com a escolha #2 (aliás, uma decisão que a franquia curiosamente reviveu 23 anos depois quando passou Durant para pegar Greg Oden) eles não apenas assinaram seu próprio destino (adivinha quem chutou a bunda do Blazers nas Finais de 1992 e destruiu a confiança do seu Franchise Player no processo?) e mudaram a escala de poder dentro da NBA. Eles também condenaram para sempre o destino da escolha #2 do Draft. Começou assim a Maldição de Sam Bowie.

A escolha #2 do Draft deveria ser um ativo de extremo valor. Ainda que não tão bom quanto a escolha #1 (dã!), onde saem os jogadores que são as absolutas certezas (Hakeem, Duncan, LeBron, Shaq, etc), a escolha #2 ainda coloca qualquer time em uma fantástica posição para escolher seu Franchise Player do futuro, uma posição privilegiada que deveria render grandes frutos para seu time. Escolha #2, pegue um Franchise Player, jogue ele por 12 anos, monte o time ao seu redor, tenha sucesso, aposente sua camisa – quase o mesmo que pensamos sobre a escolha #1.

E no entanto, desde que Bowie foi escolhido, esse não tem sido o caso – a escolha #2 tem sido um local para fracassos, decepções e frustrações. Não necessariamente para os jogadores nela escolhidos, mas para os times que detinham essa escolha. Desde Bowie, praticamente todos os jogadores escolhidos com a escolha #2 foram ou um bust, destruídos por lesões (ou pior…), um jogador decente mas decepcionante (dado sua posição), ou um jogador de sucesso que só se realizou DEPOIS de ser trocado ou deixar o time que o escolheu. Se o objetivo da escolha #2 era achar um Franchise Player, praticamente todas as escolhas deram errado, com duas notáveis exceções – as quais você vai perceber a ironia daqui a alguns parágrafos.

Não acredita em mim? Vamos fazer então uma passada histórica por todos os jogadores selecionados #2 no Draft desde aquela fatídica noite em 1984. Começando com o gerador de Maldição…

1984 Draft: Sam Bowie (Portland Trail Blazers)


Pobre Sam – não é sua culpa que ele tenha sido escolhido na frente do maior jogador da história do basquete.

Com o tempo, essa escolha acabou ganhando uma versão revisionista, com pessoas argumentando que a escolha era válida porque o Blazers precisava desesperadamente de um pivô (falso: eles já tinham Mychal Thompson, escolha #1 de 1978 e um dos melhores defensores da época… ou, como ele é mais conhecido hoje em dia, o pai do Klay), que não precisavam de MJ já tendo o segundo-anista Clyde Drexler (não só a ideia de alguém não precisar de MJ é hilária, mas Drexler como calouro não foi nada demais, tendo média de 7.7 pontos por jogo e não conseguindo vencer Steve Stipanovich, Thurl Bailey e Darrell Walker para o time de calouros do ano), ou mesmo que ninguém sabia que Jordan seria tão bom (ninguém obviamente podia prever “Melhor da história”, mas MJ era um calouro EXTREMAMENTE cobiçado. Pelo menos cinco times ofereceram a casa para o Bulls pela pick atrás de Jordan, com o Sixers chegando ao ponto de oferecer Julius Erving direto pela escolha). Mas independente dos motivos que levaram o Blazers a cometer um dos maiores erros da história da NBA, a culpa não é do pobre Sam, que teria sido um sólido pivô titular caso ficasse saudável.

O Blazers até que conseguiu contornar essa escolha montando uma boa fundação e, com a evolução de Clyde, chegando a duas finais de NBA em 1990 e 1992 (esta última perdendo, claro, para Michael Jordan). Mas faz você pensar o que teria sido do Blazers se tivessem conseguido algo de valor com essa escolha.

1985 Draft: Wayman Tisdale (Indiana Pacers)

Tisdale era uma lenda no College que nunca conseguiu corresponder na NBA. Um pontuador talentoso, Tisdale era um defensor e reboteiro bastante fraco que cometia faltas demais, impedindo que ganhasse mais tempo de quadra e reduzindo sua efetividade. Foi trocado pelo Pacers depois de três temporadas decepcionantes para o Kings por Randy Wittman (sim, aquele) e LaSalle Thompson. Teve o seu auge em 1990 por Sacramento, quando teve 22 pontos e 7 rebotes por jogo de média… por um Kings que terminou o ano com horrendos 23-59. Talvez não foi um bust completo – seis anos como titular na NBA, 15 pontos por jogo na carreira – mas foi um jogador bastante fraco e esquecível, e Tisdale – que faleceu em 2009 vítima de câncer – provavelmente teve mais sucesso em sua carreira posterior como músico de jazz do que como jogador de basquete.

Len Bias (Foto: Sports Illustrated)

1986 Draft: Len Bias (Boston Celtics)

Se você conhece esse nome, você provavelmente conhece a história daquela que é provavelmente a maior tragédia da história da NBA.


Len Bias foi selecionado #2 em 1986 por um Boston Celtics que acabava de sair de mais um título extremamente dominante, e isso graças a uma troca maluca dois anos antes – alguém em Seattle achou uma boa ideia enviar uma escolha futura de primeira rodada por Gerald Henderson pai (Henderson durou dois anos em Seattle com 13 ppg de média). Bias, um dos mais físicos e explosivos jogadores da NCAA, iria começar sua carreira no melhor time da NBA, na posição que o Celtics mais precisava de profundidade (ala/ala de força). Uma combinação rara de força, habilidade e atitude, Bias parecia ser a futura estrela para ajudar o time no curto prazo e pegar a tocha de Bird McHale no futuro. O melhor time da história do basquete estava ADICIONANDO esse jogador – aonde esse time chegaria então parecia impossível de prever.

Mas nunca aconteceu, e nunca teve a chance de acontecer – Bias morreu dois dias depois do Draft por uma overdose de cocaína. A NBA perdeu uma das suas mais empolgantes jovens estrelas, e o Celtics perdeu o jogador que no curto prazo teria tirado minutos de Bird e McHale e ajudado a estender suas carreiras, antes de virar a estrela do time. Sem um bom reserva, McHale e Bird tiveram que continuar jogando minutos hercúleos, e a carreira dos dois nunca mais foi a mesma depois de 1987, com o corpo de ambos quebrando pouco tempo depois. O futuro de Boston sumiu em um instante, e demorou mais de 20 anos até que o Celtics se reerguesse novamente.

(Trivia: Gerald Henderson pai foi trocado pelo Sonics junto com uma escolha de primeira rodada futura – eventualmente Mark Jackson – para o Knicks por outra escolha de primeira rodada futura, que acabou sendo #5 em 1987. O Sonics trocou essa escolha para o Bulls por Olden Polynice e uma 1st round pick de 1989 que acabou sendo BJ Armstrong. O Bulls usou a escolha para escolher Scottie Pippen).

1987 Draft: Armen Gilliam (Phoenix Suns)

Outro bust famoso, Gilliam teve uma carreira de 13 anos de NBA mas nunca foi mais do que um role player mediano, decente na pontuação e nos rebotes mas incapaz de fazer nada a mais. Phoenix desistiu de Gilliam depois de apenas dois anos, mandando o ala para o Lakers em troca de um Kurt Rambis de 31 anos que teve 4.2 pontos por jogo de média na sua carreira em Phoenix. Aos 31 anos e com oito de NBA, dois times já tinham dispensado o ala, e dois tinham trocado por migalhas (a segunda vez por Mike Gminski) só para se livrar de Gilliam. Resume bem o que foi sua carreira.

1988 Draft: Rik Smits (Indiana Pacers)

O holandês Rik Smits nunca foi um jogador de destaque, mas foi um dos melhores casos de sucesso para o time com a escolha em questão nessa lista – o que diz bastante sobre ela. Um jogador extremamente alto (2,24 m), Smits podia ser perigoso no garrafão jogando de costas para a cesta contra adversários menores e deu trabalho para o Bulls de Michael Jordan na sua segunda passagem pela NBA, indo até mesmo para um All-Star Game em 1998 (foi o mesmo ano que Jayson Williams foi um All Star, então leve isso com trinta grãos de sal).

Smits nunca foi particularmente dominante – nunca teve mais que 18.5 pontos ou 7.7 rebotes por jogo de média, jogou mais de 30 minutos por jogo, ou teve uma grande temporada defensiva – mas foi um titular consistente para o Pacers por 12 anos, alguns deles na época que o time chegou a disputar títulos. Não é exatamente que você quer de uma escolha #2 do Draft, mas poderia ser bem pior.

1989 Draft: Danny Ferry (Los Angeles Clippers)

Mais conhecido por sua carreira como executivo no Hawks, Ferry nunca chegou a jogar pelo Clippers – foi trocado antes da temporada começar para o Cavs por Ron Harper (que eventualmente estourou o joelho, afinal é o Clippers) e escolhas de Draft futuras. Um ala de força extremamente lento e pouco atlético que não defendia sem ponto de vista, Ferry jogou 10 anos em Cleveland e nunca pegou mais do que 4.1 rebotes por jogo e só passou de 10 pontos por jogo duas vezes, sendo até hoje lembrado com um dos grandes busts da NBA.

Foi um daqueles casos que a liga ainda estava apegada a um estereótipo que funcionou no passado (o ala de garrafão branco, lento, que joga abaixo do aro, não defendia e pontuava bastante no colegial) e que não tinha lugar em uma NBA cada vez mais atlética e explosiva, especialmente no garrafão.

Gary Payton (Foto: USA Today)

1990 Draft: Gary Payton (Seattle Supersonics)

Finalmente um jogador realmente bom escolhido com a escolha #2!

Uma das duas exceções da lista (segure essa ideia…), Payton foi escolhido pelo Sonics e, apesar de seus problemas de vestiário e com os colegas, foi a estrela do time por 12 anos de bastante sucesso, anos esses que incluíram uma passagem para as Finais da NBA em 1996 (perdendo para Jordan e o 72-10 Bulls). Um dos maiores armadores da história da liga, Payton é até hoje lembrado pela sua dominação dos dois lados da quadra, sua defesa de perímetro sem igual (apelidado de The Glove, ou A Luva), e por ter singularmente destruído John Stockton nos playoffs de 1996. Se Shawn Kemp não tivesse se autodestruído a partir de 1997, possivelmente teria ganho um anel ainda no seu auge (acabou ganhando um como role player no final da sua carreira por Miami, em 2006), um legítimo Franchise Player apesar de todos os problemas que causava.

Quanto a essa exceção para a Maldição… aguarde um pouco mais.

1991 Draft: Kenny Anderson (New Jersey Nets)

Um jogador talentoso mas muito problemático vindo dos playgrounds de New York, Anderson pelo menos deu ao Nets três bons anos, nos quais teve média de 18 pontos e 9 assistências por jogo (apesar da baixíssima eficiência) e foi a um All Star Game (1994). Mas problemas pessoais e familiares fora das quadras acabaram submergindo o talento, com o Nets eventualmente chutando Anderson para o Blazers por Kendall Gill. Anderson acabou virando um nômade na NBA depois disso, não durando em nenhum time mais do que um ano e meio (o Celtics sendo a única exceção, onde perdeu dois anos quase inteiros para lesões), se recusando a ser trocado para o Raptors por não querer jogar no Canadá, e passando por 9 times diferentes (!!) durante os seus 14 anos de carreira. Um final melancólico para um grande talento.

1992 Draft: Alonzo Mourning (Charlotte Hornets)

Um Hall of Famer, Alonzo Mourning deu ao Hornets três anos muito bons e foi a dois All Stars em 1994 e 1995 por Charlotte, mas não foi até ser trocado para o Miami Heat que enfim atingiu seu auge. Uma doença nos rins terminou atrapalhando e quase acabando com a carreira de Alonzo, mas nos seis anos que jogou em Miami (mais um sétimo destruído por lesões e a doença) Mouring teve média de 20 pontos, 10 rebotes e 3 tocos por jogo, e foi a 5 All Star Games. Foi por Miami que Mourning foi eleito duas vezes o Melhor Defensor da Temporada (1999 e 2000), foi a um 1st e um 2nd Team All NBA, e terminou #2 (1999) e #3 (2000) na corrida pelo MVP.

Charlotte conseguiu bom retorno na troca de Mourning, em especial o ótimo Glen Rice, então não foi uma troca ruim para o Hornets, mas é um caso (teremos outros) nessa lista do time que escolheu um bom jogador no #2 viu esse jogador ter seu auge e seus anos dominantes defendendo outra franquia.

1993 Draft: Shawn Bradley (Philadelphia 76ers)

Um dos jogadores mais altos da história da NBA com 2,29 m (7’6), Bradley era um protetor de aro decente que ficou mais famoso por ser um dos maiores alvos de cravadas na cabeça da história da NBA, o que diz tudo sobre sua carreira.

Pode procurar no YouTube por Shawn Bradley + enterradas, e você vai achar vários exemplos – o mais famoso provavelmente sendo a de Tracy McGrady. Bradley simplesmente não tinha a mobilidade e coordenação motora para fazer uso da sua altura, e em seus 12 anos de NBA foi principalmente marcados pelas enterradas, lesões menores e ineficiência geral. O ponto alto da sua carreira foi provavelmente ter tido seu talento roubado pelos Monstars no filme Space Jam (que completou 21 anos quarta-feira passada, dia 15/11!).

TriviaKhalid Reeves, um jogador totalmente irrelevante que jogou apenas 277 jogos em seus 6 anos de carreira na NBA, de alguma forma conseguiu entrar nessa coluna por um fato curioso – ele foi envolvido em trocas pelos 3 últimos jogadores dessa lista em algum momento da sua carreira. Fez parte do pacote que o Heat mandou por Mourning em 1995; foi com Kendall Gill para o Nets em 1996 por Kenny Anderson; e em 1997 fez parte do pacote que o Nets enviou para o Dallas junto de Shawn Bradley em uma troca por por Sam Cassell e Jim Jackson – uma troca que, ainda mais curiosamente, também está ligada ao próximo jogador da lista.

Jason Kidd (Foto: eBay)

1994 Draft: Jason Kidd (Dallas Mavericks)

Outro grande jogador, Jason Kidd foi selecionado pelo Mavs em 1994 e fazia parte de um empolgante e promissor trio de Dallas junto de outros grandes talentos em Jim Jackson e Jamal Mashburn, os famosos “Três Js”. Mas antes que esse talentoso trio de personalidades difíceis pudesse dar frutos em quadra (Dallas venceu 13, 36 e 26 jogos entre 94 e 96) o vestiário implodiu. Kidd e Jim Jackson brigaram por causa de um triângulo amoroso com a cantora Toni Braxton (não, sério!), os três começaram a brigar por causa de salários, minutos, arremessos e papel no vestiário, e a situação se deteriorou de forma tão grande e tão rápida que Dallas precisou se livrar dos três o mais rápido possível: Kidd foi mandado para Phoenix por Sam Cassell, Michael Finley e AC Green; Cassell foi usado para despachar Jim Jackson para o Nets em troca de Shawn Bradley e do agora onipresente Khalid Reeves; e Mashburn foi despachado para o Heat por Sasha Danilovic e Kurt Thomas.

Em um piscar de olhos, o “time do futuro” de Dallas tinha ido para o chão e o tormento da franquia não acabaria até serem salvos por Dirk Nash seis anos depois. Dallas viu de longe Kidd se desenvolver em um perene All Star e um dos melhores armadores da história da NBA em Phoenix e New Jersey antes dessa história enfim terminar em um final feliz: Kidd eventualmente voltou para Dallas e fez parte do time campeão de 2011.

1995 Draft: Antonio McDyess (Los Angeles Clippers)

Um ótimo jogador de garrafão, McDyess teve médias de 19 pontos, 9 rebotes e 2 tocos por jogo (e foi a um All Star Game) durante um ótimo período de 5 anos antes que lesões no joelho acabassem prematuramente com sua carreira. No entanto, nada disso foi feito pelo time que o selecionou no Draft, o Los Angeles Clippers: o Clippers trocou McDyess no dia seguinte ao Draft por Rodney Rodgers e Brent Berry, dois jogadores medianos que não ajudaram muito enquanto o Clippers continuou sendo um dos piores times da NBA durante anos a fio, enquanto assistiam McDyess chutando bundas – enquanto saudável – em outros times.

Trivia: Lembra a famosa saga do DeAndre Jordan reassinando com o Clippers depois de ser trancado numa casa com Chris Paul, Doc Rivers e mais alguém para “romper” seu compromisso com Dallas? McDyess viveu uma situação bizarramente semelhante em 1998, e que teria sido uma história muito maior e melhor hoje em dia na era da internet. Depois de defender o Suns em 1998 e virar Free Agent antes da temporada 1999 (do locaute), McDyess chegou a um acordo verbal com o Denver Nuggets antes de receber uma proposta do Suns que o fez balançar.

Na esperança de convencer McDyess, três companheiros de Suns – incluindo Jason Kidd – pegaram um avião e voaram para Denver para encontrar o pivô, possivelmente para fazer com ele o que o Clippers fez com DeAndre Jordan. McDyess estava então vendo um jogo do Colorado Avalanche com o GM do NuggetsDan Issel, que ao saber da aproximação dos três jogadores de Phoenix deu ordens para os seguranças do prédio barrarem a entrada deles no prédio enquanto Issel imediatamente levava McDyess para sua sala a fim de assinar seu contrato antes que algo mais pudesse acontecer. A saga só seria melhor se Paul Pierce estivesse lá twittando fotos de emojis de foguetes.

1996 Draft: Marcus Camby (Toronto Raptors)

Depois de dois anos sólidos mas não espetaculares, o Raptors estupidamente trocou Camby para o Knicks pelo fraco Sean Marks e um Charles Oakley de 35 anos. Camby eventualmente se desenvolveu em um excelente defensor e reboteiro fora de Toronto, sendo parte crucial do Knicks que foi às Finais em 1999 mesmo após a lesão de Patrick Ewing, e eventualmente tendo seu auge em Denver, onde foi eleito quatro vezes para o time de defesa ideal da temporada e ganhou o prêmio de Melhor Defensor da Temporada em 2007. Nunca uma estrela, mas um jogador bem sólido que novamente só foi ter seu auge depois de trocado pelo seu time de origem.

1997 Draft: Keith Van Horn (Philadelphia 76ers)

Mais famoso por ser um cover do Tintim, Van Horn foi trocado pelo time que o escolheu (o Sixers) pouco após o Draft por Jim Jackson, Eric Montross e Tim Thomas, e embora nunca tenha sido uma estrela (e tenha tido uma carreira estranhamente curta de 9 anos), Van Horn foi durante um bom tempo um jogador muito útil que tinha a estranha tendência de aparecer como um jogador importante para bons times. Teve média de 18 pontos e 8 rebotes para os bons times do Nets de Jason Kidd (eventualmente chegando nas Finais com o time em 2002), e voltando para as Finais com sexto homem do Dallas de 2006.

Van Horn também merece crédito por ser um pioneiro do basquete moderno: em sua carreira como ala de força, Van Horn chutou 3 bolas de 3 por jogo e acertou 36% delas.

1998 Draft: Mike Bibby (Vancouver Grizzlies)

Outro exemplo de um útil, mas nada espetacular jogador que só se encontrou depois de ser trocado (por Jason Williams – aquele – e um Nick Anderson decrépito). Útil no Grizzlies mas carregando uma carga excessiva em times horríveis no Canadá, Bibby teve seu auge como armador secundário dos famosos times do Kings dos anos 2000 que deveriam ter ido às Finais em 2002. Vancouver trocou Bibby em 2002 e perdeu seu time meses depois para Memphis. A Maldição de Sam Bowie, além de tudo, é criativa.

1999 Draft: Steve Francis (Vancouver Grizzlies)

Mais uma escolha #2 que não deu certo para o Grizzlies, mas dessa vez não foi totalmente culpa da franquia. Uma vez escolhido, Steve Francis declarou publicamente que não queria jogar pelo Grizzlies e exigindo uma troca, chegando até a dizer que era a vontade de Deus. Depois de diversos conflitos extra-quadra, a franquia enfim mandou o armador para Houston em uma troca imensa de 11 jogadores que eu não vou reviver aqui mas que não envolveu nada de espetacular.

Um estilo de jogo individualista, lesões e problemas extra-quadra acabaram por fazer Francis ser trocado de Houston e acabar fora da NBA aos 29 anos, mas durante seus cinco anos no Rockets foi um dos mais explosivos e promissores armadores da NBA, um All-Star por 3 vezes que atacava a cesta feito louco e enterrava na cabeça de todo mundo, mas que nunca atingiu todo o potencial que prometia.

2000 Draft: Stromile Swift (Vancouver Grizzlies)

Três seguidas para o Grizzlies, e mais um fracasso – dessa vez totalmente por culpa da franquia. Swift foi um enorme bust que jogou 5 anos na franquia (em Vancouver Memphis) antes de ser dispensado e não deixar saudades algumas, e aos 29 anos já estava fora da NBA sendo titular em menos de 100 jogos durante sua carreira. Em defesa do Grizzlies, o Draft de 2000 foi um dos piores de todos os tempos, então não tinha muito o que fazer com essa escolha que não teria sido um grande fracasso.

Diga-se de passagem, Swift foi também um pioneiro – após sair da NBA em 2009, foi jogar na Liga Chinesa antes de ser moda.

Tyson Chandler (Foto: Bleacher Report)

2001 Draft: Tyson Chandler (Los Angeles Clippers)

Com uma classe de calouros MUITO hypeada que incluia ChandlerPau Gasol, Eddy Curry e Kwame Brown (!!!!), o Bulls – que já tinha a escolha #4 – trocou seu melhor jogador e Franchise Player, Elton Brand, para o Clippers em busca de outra escolha Top4 para ficar com dois desse jovens extremamente promissores (irch!).

E se hoje lembramos do Tyson Chandler grande defensor, finalizando pontes aéreas, ajudando Dirk a ganhar um anel e ganhando prêmios de Defensor do Ano, o Chandler adolescente que chegou em Chicago era tudo menos isso. Chandler teve inúmeros problemas de adaptação e leitura de jogo, sofreu para ganhar minutos, e apesar das inúmeras chances que teve nunca correspondeu em Chicago. Chandler só foi se encontrar como parceiro de pick and roll de Chris Paul em New Orleans e depois explodiu como o defensor de elite que conhecemos em Dallas. Chandler acabou dando bem certo na NBA, mas foi uma longa jornada até chegar lá.

2002 Draft: Jay Williams (Chicago Bulls)

Outra escolha do Bulls que deu errado, por um motivo bizarro. Depois de um ano bastante fraco como calouro, Williams se envolveu em um acidente horrível de moto durante a offseason que o deixou extremamente machucado no joelho, nos nervos da perna e no quadril, uma lesão que encerrou sua carreira no basquete depois de apenas um ano de NBA.

2003 Draft: Darko Milicic (Detroit Pistons)

Em um dos melhores Drafts da história da NBA, o Pistons decidiu pegar Darko Milicic #2 ao invés de Carmelo Anthony, Dwyane Wade e Chris Bosh. E, o pior de tudo, a decisão até fazia sentido na época: Darko era um prospecto bastante bem cotado, o Pistons tinha uma carência no garrafão (Rasheed Wallace só chegaria meses depois), o time já tinha um ala perfeito para seu esquema em Tayshaun Prince, e LeBron-Darko-Melo era o claro Top3 daquele Draft na época.

Ainda assim, Darko entra para a história como um dos maiores busts da história da NBA. Um adolescente que chegou na hora errada, com as expectativas erradas e para o time errado, Milicic nunca mostrou qualquer tipo de produção de bom nível na NBA e estava fora da liga aos 27 anos, seu desenvolvimento e sua confiança destruídos ao longo do tempo. Seu maior legado provavelmente é inspirar um dos melhores blogs de NBA da história, o hoje falecido FreeDarko.

E sabe o que é curioso? Se o Pistons pega Melo (a outra opção plausível à época), eu não acho que o time venceria o título. Melo não se encaixava em nada no esquema, teria comido minutos do ótimo Tayshaun Prince, e ele e o técnico Larry Brown se odiaram quando conviveram pela seleção americana. Em um ano apertado, esse elemento imprevisível e destoante teria implodido a cuidadosa dinâmica em cima do qual esse time foi concluído, e o Pistons talvez nunca chegasse ao seu objetivo. As vezes há males que vem para o bem.

2004 Draft: Emeka Okafor (Charlotte Bobcats)

Okafor não foi ruim como jogador, um bom reboteiro e defensor que acabou ganhando de Dwight Howard o prêmio de calouro do ano. O principal problema é que foi só isso que Okafor foi – o Bobcats e a NBA continuaram esperando que o pivô se desenvolvesse, e isso nunca aconteceu. Os anos passavam, e Okafor continuava sendo o mesmo jogador: 14 pontos, 10 rebotes, 1.5 tocos, boa defesa, mais nada, durante toda sua estadia em Charlotte. Okafor eventualmente foi trocado por Tyson Chandler e viu lesões encerrarem sua carreira. Não foi um bust, mas também não foi nada mais do que um jogador médio e um tanto quanto decepcionante.

2005 Draft: Marvin Williams (Atlanta Hawks)

Outro jogador que ficará marcado para sempre pelos jogadores escolhidos depois dele. No caso, a decisão inexplicável e horrível do Hawks de passar Chris Paul e Deron Williams para pegar Marvin Williams, que sequer fora titular em Syracuse na NCAA. Conforme Paul e Williams se desenvolviam em dois dos melhores armadores da NBA, Marvin foi um contribuidor estável mas extremamente decepcionante para uma série de times sólidos mas esquecíveis de Atlanta, com 11 pontos por jogo de média na Georgia e absolutamente nenhuma evolução ao longo da sua carreira por lá.

Williams eventualmente se reinventou com stretch-four na NBA moderna em Utah e depois Charlotte com bom chute de três pontos e sólida proteção de aro, e achou um bom nicho para si na liga, mas eternamente será lembrado como um dos jogadores mais decepcionantes da NBA – embora apenas em partes por motivos que estavam sob o seu controle.

2006 Draft: LaMarcus Aldridge (Chicago Bulls)

Outra grande estrela e perene All-Star que caiu no colo do Chicago Bulls… só que o Bulls optou por trocar Aldridge pela escolha #4 do Draft (Tyrus Thomas) e o ala ucraniano Viktor Khryapa em uma das piores decisões do século 21.


Tyrus Thomas foi um enorme bust que estava fora da NBA aos 26 anos enquanto LaMarcus Aldridge – agora em Portland – se tornou um dos mais consistentes e dominantes alas de força da NBA, uma garantia de 22 pontos, 9 rebotes, e boa defesa todas as noites por uma série de muito divertidos times do Blazers que nunca atingiram seu potencial por causa de lesões (Brandon Roy, Greg Oden, Wes Matthews… a lista é longa). Chicago ainda conseguiu alguns anos depois se remontar em um contender ao redor de Rose, Deng e Joakim Noah – todos grandes acertos no Draft – mas imagina como seria esse time de Chicago se fosse Aldridge e não Carlos Boozer jogando de PF. Mesmo que seria difícil concretizar essa visão devido aos múltiplos cenários possíveis, ainda foi um erro grotesco de Chicago.

Kevin Durant (Foto: USA Today)

2007 Draft: Kevin Durant (Seattle Supersonics)

Ai está, nosso segundo grande sucesso! Um dos maiores cestinhas de todos os tempos, MVP e atual MVP das Finais, alguém que já está no Panteão dos grandes jogadores de todos os tempos, Kevin Durant é o segundo e último grande acerto dessa lista no quesito “Tenha a escolha #2, selecione um Franchise Player, tenha grande sucesso com ele por muitos anos, aposente sua camisa“, o primeiro sendo Gary Payton.

Agora me diga… o que os dois, as duas exceções da lista, tem em comum?

As duas foram pegas pelo Seattle Supersonics… uma franquia que NÃO EXISTE MAIS!!

Não mexa com a Maldição de Sam Bowie se não quer pagar o preço!! Ela tarda, ela pega caminhos tortuosos, mas ela nunca falha!

2008 Draft: Michael Beasley (Miami Heat)

Outro bust famoso. Beasley foi um MONSTRO na NCAA – 26 pontos, 12 rebotes por jogo em Kansas State – mas na NBA teve que lidar com problemas de condicionamento, desinteresse total por coisas como “defesa” e em geral um estilo muito ineficiente e egoísta de jogar. Depois de dois anos decepcionantes em Miami, foi enviado para Minnesota a fim de abrir espaço salarial para a vinda de LeBron James, e passou lá mais dois anos nos quais seus números foram razoáveis mas suas atuações, péssimas. Desde então tem flutuado entre times da NBA (e a liga chinesa), misturando alguns momentos bons no currículo com muito mais momentos de banco e falta de minutos.

(As escolhas #2 e #3 desse draft foram Beasley OJ Mayo. As #4 e #5 do Draft? Russell Westbrook e Kevin Love).

2009 Draft: Hasheem Thabeet (Memphis Grizzlies)

Em um dos melhores Drafts da história da NBA que incluiu Blake Griffin (#1), James Harden (#3), Ricky Rubio (#5), Stephen Curry (#7) e DeMar DeRozan (#9), de alguma forma o Grizzlies conseguiu fracassar DE NOVO com a escolha #2 escolhendo Hasheem Thabeet, de longe o pior jogador de toda essa lista. Um pivô enorme e comprido que não fazia ideia de como jogar basquete, Thabeet teve média de 3.1 pontos por jogo como calouro e nunca mais conseguiu chegar perto de atingir essa marca. O desenvolvimento nunca veio, a vontade de evoluir também não, e aos 26 anos Thabeet já não tinha mais chances na NBA. Uma das piores escolhas da história da NBA.

2010 Draft: Evan Turner (Philadelphia 76ers)

Outro grande fracasso do topo do Draft. Chegando com status de salvador e dividindo o topo do Draft com John WallTurner foi selecionado por um bom time de Philadelphia mas nunca conseguiu se adaptar e adicionar nada a um time sólido que precisava desesperadamente de um brilho individual. Seu estilo de jogo baseado na meia distância começava a virar passado na liga, e sua falta de explosão e agilidade impediram que suas habilidades como playmaker se traduzissem para a NBA. Turner acabou cavando um lugar na NBA como reserva de defesa/post ups/playmaking secundário, mas muito aquém do que se esperava quando chegou à NBA com tanta expectativa.

2011 Draft: Derrick Williams (Minnesota Timberwolves)

Oh boy, que sequência impressionante de busts temos aqui.

Elogiado à época por muitos (inclusive por mim, que cheguei a dizer que o Cavs deveria pegá-lo na escolha #1) como o PF perfeito para a nova era que a NBA estava se encaminhando, Williams na NBA se mostrou lento demais para jogar de SF, fraco e pouco físico demais para jogar de PF. Seu arremesso nunca veio, sua defesa também não, e basicamente viveu dos passe de Ricky Rubio e de algumas pontes aéreas durante muito mais tempo do que deveria. Atualmente está sem clube apesar de ter ainda 25 anos, uma casca do que acharam que ele seria.

2012 Draft: Michael Kidd-Gilchrist (Charlotte Bobcats)

Um jogador cru mas com ótimo físico e de enorme potencial, Kidd-Gilchrist não só nunca se desenvolveu como esperado como também não consegue de forma alguma ficar dentro de quadra. Seu péssimo arremesso – que nunca se desenvolveu – faz dele um encaixe complicado na NBA de hoje, e embora sua ótima defesa compense isso até certo ponto, MKG nunca teve a continuidade necessária para se estabelecer na NBA e acabou ficando para trás no desenvolvimento do atual Hornets. Kidd-Gilchrist ainda não é um bust completo, mas dadas as dificuldades de desenvolvimento e a dificuldade ainda maior de ficar saudável e em quadra, pode ser apenas questão de tempo para ser reconhecido como tal.

2013 Draft: Victor Oladipo (Orlando Magic)

Em um Draft reconhecidamente fraco (que parece um pouco menos fraco hoje que Giannis se tornou um candidato a MVP e Gobert um candidato eterno a DPOY), Oladipo – que muitos tinham como o melhor jogador do Draft – acabou caindo para o Magic no #2 e de modo geral se mostrou um jogador… ok. Seu físico impressionava e sua agilidade também, mas a situação ao seu redor era péssima para seu desenvolvimento: com um técnico retrógrado durante boa parte da estadia, jogando fora de posição, com um time sem nenhum tipo de espaçamento para Oladipo atacar a cesta (sua maior virtude), Oladipo pareceu estagnado em Orlando durante seus três anos antes de ser trocado para o Thunder, onde virou um dos reféns de Russell Westbrook em sua campanha pelo MVP.

Em seu terceiro time, o Pacers, Oladipo enfim parece estar realizando seu potencial. Ainda que seu aproveitamento esteja fora da realidade e deva normalizar com o tempo, o ritmo de jogo e o espaçamento do Pacers ajudou Dipo a maximizar sua velocidade, tornando-se uma força da natureza na transição ofensiva. Talvez Oladipo esteja começando a mostrar seu talento, e que realmente duas situações péssimas em Orlando e OKC eram o que estava impedindo sua carreira. Ainda é possível que um dia adicionemos Victor Oladipo na lista dos jogadores #2 que explodiram depois de serem trocados.

2014 Draft: Jabari Parker (Milwaukee Bucks)

Quanto mais no presente chegamos com essa lista, mais difícil é dizer onde esses jogadores se enquadram e qual seu futuro como escolhas amaldiçoadas por uma escolha feita muitos anos antes deles sequer nascerem. Jabari estaria hoje no seu quarto ano de NBA – mas só vimos basicamente fragmentos de um ano e meio de Jabari Parker em meio a lesões. Das 3 temporadas de Jabari na NBA, duas foram encerradas prematuramente por ligamentos rompidos (sempre um farol vermelho) e a outra foi uma temporada VOLTANDO dessa lesão grave, de forma que é difícil realmente avaliar o que Jabari Parker é como jogador – uma pergunta que Milwaukee deve se fazer com certa frequência. Ele é um 3 ou um 4? Ele é capaz de jogar junto de Giannis Middleton? É capaz de defender o suficiente? Ainda não sabemos essas coisas.

O melhor parâmetro para Jabari que temos provavelmente é seu 2017 pré-lesão, seus jogos mais saudáveis até o momento. Se for, Jabari parece ser um ótimo pontuador com um arremesso em evolução, mas com uma defesa furada que torna difícil jogar certas lineups com ele, e um jogador preso entre posições. Seu potencial como pontuador ainda é muito intrigante e pode ser que Jabari ainda acabe sendo uma boa escolha #2, como mostrou flashes ano passado, especialmente se o loooongo time de Milwaukee conseguir cobrir sua defesa. Mas também é bastante fácil enxergar uma situação onde o Bucks, com problemas salariais e prestes a dar uma extensão cara para Jabari (que não deu nenhuma mostra de ficar saudável), simplesmente decida que ele é quem precisa ir embora. A ser definido.

2015 Draft: D’Angelo Russell (Los Angels Lakers)

Acaba sendo muito ignorado uma coisa quando falamos do desenvolvimento de jovens é a situação onde eles vão parar, e isso pode ser crítico entre um jogador talentoso acabar como uma revelação ou um fracasso. E D’Angelo Russell é alguém que teve uma das piores situações possíveis, e o Lakers não fez nada para ajudar: basicamente perdeu seu primeiro ano formativo (de calouro) atrás de uma péssima diretoria, o pior técnico da NBA que constantemente estava em conflito público com Russell, e o show de despedida do Kobe que deu a Russell zero espaço para desenvolver. No seu segundo ano, Russell teve seus problemas mas mostrou uma boa evolução sob um novo técnico e uma nova situação… só para ser jogado debaixo do ônibus pela nova diretoria e trocado para o Nets.

Russell tem potencial como passador e chutador, sendo bom em ambas as funções, mas ainda não entendendo como usar as duas dentro de quadra de forma a maximizar seu jogo e seus companheiros. Russell vinha fazendo grandes avanços nesse sentido no começo do ano sob o competente Kenny Atkinson no Nets antes de sofrer a lesão, então resta aguardar para ver o que acontece com o armador quando voltar. Pelo Lakers, ele já foi um fracasso – embora muito por culpa de outros.

2016 Draft: Brandon Ingram (Los Angeles Lakers)

Brandon Ingram foi horrível como calouro, parecendo totalmente perdido dos dois lados da quadra, incapaz de usar seus dotes físicos em quadra e sendo jogado de um lado para o outro como uma boneca de pano. Mas as pessoas esquecem que Ingram era um dos jogadores mais novos do Draft, e ainda é mais novo do que boa parte dos jogadores do Draft de 2017. Por exemplo, Ingram é só dois meses mais velho que Lonzo Ball. É preciso dar tempo a Ingram.

Na sua segunda temporada os progressos foram muito mais animadores. A falta de arremesso ainda é preocupante e será um problema enquanto continuar – Ingram parece muito mais confortável usando seus longos braços para atacar a cesta e finalizar, mas ele não é explosivo, forte ou ágil como Giannis (que, convenhamos, é um ponto fora da curva) para chegar na cesta quando quer, e o arremesso precisará vir para evitar que a quadra fique estrangulada. Ainda assim, Ingram parece um jogador bem diferente no seu segundo ano, e sua combinação de potencial defensivo, criação, passe e pontuação para um jogador do seu tamanho é bem atraente para qualquer time.

2017 Draft: Lonzo Ball (Los Angeles Lakers)

Vamos tirar isso do caminho: eu acho que Lonzo ficará bem. É cedo demais pra julgar demais, muito menos declarar o garoto Ball um bust. As pressões criadas ao seu redor – por um pai maluco, uma mídia ávida por cliques e um Lakers megalômano que já mostrou não ter nenhum tato para lidar com seus jovens jogadores – estão atrapalhando nossa percepção, e incentivando as conclusões precipitadas. Seu QI de basquete e seu passe são bons demais para não darem certo na NBA.

Dito isso, Lonzo tem sido simplesmente péssimo na NBA. Seu arremesso não está funcionado, e Lonzo parece incapaz de finalizar qualquer tipo de jogada que não seja livre. O arremesso ruim de 3 tem chamado mais atenção, mas os 35% de aproveitamento em bolas de dois é muito mais preocupante, a meu ver (em defesa de Lonzo, eu acho que ele tem sido muito mal usado pelo Lakers e teria se beneficiado de jogar ao lado de… D’Angelo Russell). E muito disso não teria importância – apenas os percalços de um calouro – se não fosse Lonzo sendo jogado totalmente no fogo por uma diretoria do Lakers que vendeu cedo demais Ball como seu salvador, o novo Magic, e que precisava que Lonzo fosse dominante logo de cara para vender seu projeto e sua imagem, ao invés de deixar isso se desenvolver naturalmente. Para mim, a situação ao seu redor – familiar, midiática, e a péssima condução do Lakers – é muito mais preocupante para o futuro de Lonzo do que seu arremesso torto.

Conclusão

Ok, agora que chegamos ao fim… HOLY SHIT, que lista horrível. É de doer o coração. Um número enorme de busts, tragédias com lesões, potenciais desperdiçados, e trocas ruins. Não foi fácil escrever essa coluna.

Olhando os números e estabelecendo 2012 como o último ano que podemos dar um veredito parcial (depois disso é cedo demais), eis os resultados em 29 anos de escolhas #2 de Draft entre Sam Bowie (1984) e Michael Kidd-Gilchrist (2012):

– Dessas 29 escolhas, 13 (!!!!!) foram busts, incluindo problemas com lesões (Bowie, Tisdale, Gilliam, Danny Ferry, Shawn Bradley, Stromile Swift, Jay Williams, Darko, Marvin Williams, Beasley, Hasheem Thabeet, Evan Turner e Derrick Williams). Ou seja, incríveis 45% das escolhas #2 desde Bowie foram busts.

– Dessas 29 escolhas, um morreu antes de sequer jogar um jogo de NBA (Lenny Bias).

– Das 29 escolhas, 5 (17%) tiveram uma carreira entre “Decepcionante” e “Abaixo do esperado para uma pick #2” (Smits, Kenny Anderson, Mike Bibby, Emeka Okafor e MKG)

– Das 29 escolhas, 8 (28%) delas acabaram virando realmente bons jogadores ou até estrelas… mas só depois de terem sido trocado pelos seus times de origem (Kidd, Aldridge, Camby, Van Horn, Tyson Chandler, McDyess, Alonzo Mourning e Steve Francis), e eu estou sendo generoso com alguns desse nomes (poderia ser limitada a Chandler, Kidd, Aldridge e Mourning, jogando o resto na categoria baixo).

– E apenas DOIS viraram realmente estrelas para os times que os draftaram, Payton e Durant.

Em outras palavras, 19 de 29 (incríveis 65%) dessas escolhas falharam em se tornar um grande jogador, sendo que 13 foram completamente inúteis para seus times no médio prazo. Olhando mais a fundo, apenas CINCO dessas 29 escolhas (Payton, KD, Aldridge, Kidd e Mourning – 17%) viraram estrelas de fato na NBA (para efeito de comparação, a escolha #3 teve 8 no período e isso sem contar Joel Embiid), e apenas dois, três (contando Smits) ou quatro (se quiser contar como sucesso Glen Rice como retorno de Alonzo) times REALMENTE podem dizer que tiveram sucesso escolhendo na posição #2 durante VINTE E NOVE ANOS.

E no final, chegamos nisso: apenas dois times que tinham a escolha #2, a segunda posição mais valiosa do Draft inteiro, conseguiram obter um Franchise Player para seu futuro e construir todo um futuro vencedor (mesmo que sem títulos) ao seu redor. Ambos foram draftados pelo Seattle Supersonics, a franquia que foi roubada da forma mais cruel da história da NBA.

E se isso tudo não é suficiente pra te convencer da Maldição de Sam Bowie, eu não sei o que é.

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